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A dúvida de mãos dadas à fé

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<span style="font-size:14px;">Como sei o que sei? Nesta pergunta b&aacute;sica reside todo o problema da epistemologia. Um n&oacute; apertado. N&atilde;o pretendo, aqui, lidar com os fundamentos filos&oacute;ficos do conhecimento, mas com a crise que o protestante brasileiro, e particularmente com a crise do evang&eacute;lico, que esperneia quando se defronta com a d&uacute;vida.<br />
<br />
Sinto-me desafiado a aliviar este n&oacute; epistemol&oacute;gico, porque o assunto me toca de perto. Como pastor evang&eacute;lico, como pesquisador das Ci&ecirc;ncias da Religi&atilde;o e como crist&atilde;o, preciso entender o porqu&ecirc; do receio diante da possibilidade da d&uacute;vida.<br />
<br />
&Eacute; pr&oacute;prio de o sujeito religioso assegurar a sua convic&ccedil;&atilde;o inabal&aacute;vel, a sua certeza absoluta e o seu acesso perfeito &agrave; verdade divina. Ele se considera t&atilde;o convicto de que atingiu a realidade &uacute;nica, objetiva, real e concreta, que sai para fazer pros&eacute;litos. Admitir a remota possibilidade de n&atilde;o estar alinhado &agrave; verdade absoluta, constitui-se em fraqueza inadmiss&iacute;vel para o praticante de uma tradi&ccedil;&atilde;o religiosa que se pretende herdeira leg&iacute;tima dos segredos divinos.<br />
<br />
O problema se torna agudo entre os evang&eacute;licos e protestantes que optaram pelo que Rubem Alves denominou de &ldquo;Protestantismo da Reta Doutrina&rdquo;. Precisamente eles, os da reta doutrina, levedam a prec&aacute;ria produ&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria e teol&oacute;gica dos evang&eacute;licos nacionais. Segundo Rubem Alves, os &ldquo;Protestantes da Reta Doutrina privilegiam a concord&acirc;ncia com uma s&eacute;rie de formula&ccedil;&otilde;es doutrin&aacute;rias, tidas como express&otilde;es da verdade, e que devem ser afirmadas sem nenhuma sombra de d&uacute;vida, como condi&ccedil;&atilde;o para participa&ccedil;&atilde;o na comunidade eclesial&rdquo; [1].<br />
<br />
Esse grupo se firmou nos Estados Unidos no apogeu da modernidade, quando se questionava a legitimidade &ldquo;cient&iacute;fica&rdquo; dos relatos b&iacute;blicos. Alguns te&oacute;logos calvinistas se apressaram em demonstrar que o cristianismo n&atilde;o era apenas racional, mas a &uacute;nica revela&ccedil;&atilde;o de Deus aos homens. O te&oacute;logo Charles Hodge catalogou cinco fundamentos da f&eacute; crist&atilde;, para ele inegoci&aacute;veis. E de seus primeiros tratados, nasceu um movimento que passou a ser conhecido como &ldquo;fundamentalismo&rdquo;.<br />
<br />
Hodge afirmou: que &ldquo;a tarefa do te&oacute;logo consiste n&atilde;o em buscar significado al&eacute;m das palavras, mas em organizar os claros ensinamentos das Escrituras num sistema de verdades gerais&rdquo;[2]. Ele chegou a dizer que &ldquo;Deus inspirou cada uma das palavras da B&iacute;blia; portanto, &eacute; preciso lev&aacute;-las a s&eacute;rio e n&atilde;o distorc&ecirc;-las com exegeses aleg&oacute;ricas ou simb&oacute;licas&rdquo; [3].<br />
<br />
Portanto, o termo fundamentalismo, hoje carregado de significados negativos, a princ&iacute;pio n&atilde;o passava de um esfor&ccedil;o sincero de tornar os textos sagrados em &ldquo;verdades factuais&rdquo;. Os te&oacute;logos fundamentalistas cometiam, entretanto, o mesmo erro dos cientistas da natureza, os racionalistas que se ocupavam com a raz&atilde;o &ndash; com an&aacute;lise de dados, com fatos, fen&ocirc;menos, opera&ccedil;&otilde;es, processos, energias, estruturas, evolu&ccedil;&otilde;es [4].<br />
<br />
Hans K&uuml;ng afirmou que, caso os te&oacute;logos e fil&oacute;sofos queiram dialogar com a ci&ecirc;ncia natural, ser&aacute; necess&aacute;rio mod&eacute;stia e autocr&iacute;tica. Pois &ldquo;muitos cientistas j&aacute; chegaram a reconhecer que n&atilde;o podem oferecer verdades definitivas&rdquo;[5]. Nem mesmo a ci&ecirc;ncia, atrav&eacute;s do m&eacute;todo emp&iacute;rico, ousa deter verdades absolutas.<br />
<br />
K&uuml;ng n&atilde;o mede palavras quando aborda a atitude do te&oacute;logo quanto &agrave; verdade: &ldquo;Pois tamb&eacute;m eles, que profissionalmente est&atilde;o empenhados na verdade da f&eacute;, n&atilde;o possuem de antem&atilde;o esta verdade, nem dela disp&otilde;em de forma definitiva&rdquo; [6].<br />
<br />
O movimento evang&eacute;lico nacional esperneia por saber que a l&oacute;gica fundamentalista, de possuir a verdade final, . Segundo Pr&oacute;coro Velasques Filho, em Introdu&ccedil;&atilde;o ao Protestantismo no Brasil (Edi&ccedil;&otilde;es Loyola, p. 126) o corte do protestantismo, os evang&eacute;licos brasileiros t&ecirc;m ra&iacute;zes no fundamentalismo norte americano, que se caracterizou precisamente por dois eixos principais: <em>omilenarismo e a teologia da inerr&acirc;ncia ou inspira&ccedil;&atilde;o plen&aacute;ria da B&iacute;blia</em>. Para os te&oacute;logos originais do fundamentalismo, a &ldquo;revela&ccedil;&atilde;o de Deus s&oacute; seria perfeita se fosse &lsquo;isenta de erros, contradi&ccedil;&otilde;es, paradoxos e inconsist&ecirc;ncias&rsquo;&rdquo;.<br />
<br />
Com esta caracter&iacute;stica de privilegiar a ades&atilde;o dogm&aacute;tica &agrave; uma &ldquo;verdade absoluta&rdquo;, antecipo dois caminhos para os &ldquo;Protestantes da Reta Doutrina&rdquo;:<br />
<br />
a)&nbsp; Acomodam-se em repetir os antigos dogmas, sem coragem para se repensarem, sem ousadia para fazer perguntas que os deixar&atilde;o sem respostas, sem determina&ccedil;&atilde;o de levar &agrave;s &uacute;ltimas consequ&ecirc;ncias suas dedu&ccedil;&otilde;es.<br />
A repeti&ccedil;&atilde;o produz conforto. Os crentes est&atilde;o sempre em busca de conforto quando v&atilde;o &agrave;s igrejas aos domingos.<br />
<br />
A repeti&ccedil;&atilde;o conforta porque ela confirma a imutabilidade da verdade. E na medida em que a verdade afirmada no momento &eacute; a verdade que algu&eacute;m j&aacute; est&aacute; acostumado a ouvir, cria-se a certeza de ser-se senhor da verdade [7].<br />
<br />
Acontece que a repeti&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m conduz ao enfado. A optar pela repeti&ccedil;&atilde;o de verdades bem assentadas e previamente cridas, o evang&eacute;lico cria um ambiente de mesmice. E para sair da mesmice, precisa inventar ambientes emocionalmente carregados, para isso apela para os c&acirc;nticos que eletrizem em nome de louvores, as emo&ccedil;&otilde;es que o discurso n&atilde;o gera.<br />
<br />
Ant&ocirc;nio Gouv&ecirc;a Mendon&ccedil;a pesquisou os prim&oacute;rdios da evangeliza&ccedil;&atilde;o brasileira e concluiu:<br />
&ldquo;Sabemos que os serm&otilde;es eram conservacionistas e pol&ecirc;micos; o pregador procurava apelar para a distin&ccedil;&atilde;o entre a &ldquo;verdade&rdquo; e o &ldquo;erro&rdquo;, entre a nova mensagem e a religi&atilde;o dominante. O tom do serm&atilde;o era dogm&aacute;tico e racionalista ao mesmo tempo; dogm&aacute;tico ao fundamentar-se nos dogmas comuns do cristianismo que deviam ser recuperados diante de uma melhor e mais verdadeira fundamenta&ccedil;&atilde;o escritur&iacute;stica, e racionalista ao procurar tecer o serm&atilde;o numa l&oacute;gica irrecus&aacute;vel.<br />
<br />
O objetivo era convencer o ouvinte e uma verdade contra outra. Mas o dogmatismo-epistemol&oacute;gico-pol&ecirc;mico nem sempre era suficiente para mover o ouvinte a uma mudan&ccedil;a de atitudes; da&iacute; a necessidade de aliar ao serm&atilde;o, j&aacute; na maior parte das vezes dram&aacute;tico, c&acirc;nticos apropriados para auxiliar a eleva&ccedil;&atilde;o do &ldquo;t&ocirc;nus&rdquo; emocional da reuni&atilde;o, formando ambiente favor&aacute;vel &agrave;s decis&otilde;es individuais (convers&otilde;es)&rdquo; [8].<br />
<br />
b) Recrudescem na intoler&acirc;ncia, fecham-se em guetos, endurecem o controle criam &ldquo;historiadores oficiais&rdquo;, &ldquo;te&oacute;logos chancelados&rdquo;, &ldquo;voltam os tribunais inquisitoriais&rdquo; para ca&ccedil;ar os que se atrevem caminhar at&eacute; as fronteiras (Boaventura), os que saem dos paradigmas (Kuhn), os que desafiam os marcos categoriais (Juan Luis Segundo).<br />
<br />
Atrevo-me a sugerir que o movimento evang&eacute;lico brasileiro reconhe&ccedil;a sua incapacidade de abarcar &ldquo;a verdade&rdquo;, que abandone o pressuposto de que vai codificar a correta doutrina de Deus, admita que o conhecimento absoluto de Deus est&aacute; para al&eacute;m da capacidade humana. Na verdade, ningu&eacute;m tem o acurado conhecimento de Deus; caso fosse poss&iacute;vel, como algu&eacute;m j&aacute; afirmou, &ldquo;eu seria ele&rdquo;.<br />
<br />
O te&oacute;logo espanhol, Andr&eacute;s Torres Queiruga prop&otilde;e que a teologia abra um di&aacute;logo at&eacute; com os ateus:<br />
&ldquo;O ate&iacute;smo, em sua pr&oacute;pria negatividade, pode ser uma grande oportunidade para a f&eacute;; pode at&eacute; ser uma medida da Provid&ecirc;ncia para que os crist&atilde;os, assumindo a cr&iacute;tica ateia, compreendam que Deus &eacute; sempre muito maior. &ndash; &ldquo;Deus sempre maior&rdquo; &ndash; do que as ideias que n&oacute;s fazemos dele. A cr&iacute;tica dos ateus pode ajudar-nos a romper os esquemas em que tantas vezes encadeamos e deformamos a ideia de Deus [9].<br />
<br />
Para sair do impasse de que a f&eacute; precisa de verdades absolutas e a possibilidade de d&uacute;vida. Proponho que a cosmovis&atilde;o protestante evang&eacute;lica re-signifique a f&eacute;. Sugiro, portanto que:<br />
<br />
<strong><u>1. A verdade seja tratada como &ldquo;boa-f&eacute;&rdquo;.</u></strong><br />
<br />
No excelente &ldquo;Pequeno Tratado das Grandes Virtudes&rdquo;, Andr&eacute; Comte-Sponville coloca a &ldquo;boa-f&eacute;&rdquo; como um dos grandes valores da humanidade. O fil&oacute;sofo franc&ecirc;s, depois de lutar entre os termos<em>veracidade</em>, <em>veridicidade e autenticidade</em>, optou finalmente por &ldquo;boa-f&eacute;&rdquo;. Para ele, boa-f&eacute; &eacute; um fato, portanto, aomesmo tempo uma realidade psicol&oacute;gica e uma virtude, ou um tra&ccedil;o moral. Como fato, boa-f&eacute;, &eacute; &ldquo;a conformidade dos atos e das palavras com a vida interior, ou desta, consigo mesma&rdquo;. Como virtude, &eacute; o amor ou respeito &agrave; verdade. Ter boa-f&eacute; &eacute; dizer o que acredita, mesmo que esteja enganado, como acreditar no que diz. &Eacute; cren&ccedil;a fiel, e fidelidade no que se cr&ecirc;.<br />
<br />
A verdade deixaria, ent&atilde;o de ser a concord&acirc;ncia a um postulado ou a uma assevera&ccedil;&atilde;o previamente estudada e concordada, para ser uma integridade. A boa-f&eacute; se op&otilde;e, portanto, ao dogmatismo. E quem opta pela verdade em nome do dogmatismo e n&atilde;o como uma &ldquo;boa-f&eacute;&rdquo;, vira intolerante.<br />
<br />
&ldquo;Tomam sua f&eacute; por um saber. Por ela, est&atilde;o dispostos a morrer e a matar. Eles n&atilde;o duvidam. Eles n&atilde;o hesitam. Eles conhecem a Verdade e o Bem. Para que necessitam de ci&ecirc;ncias? Para que necessitam de democracia? Tudo est&aacute; escrito no Livro. Basta crer e obedecer. Entre Darwin e o G&ecirc;nesis, entre os direitos do homem e a Sharia, entre os direitos dos povos e a Tora, eles escolheram de que lado est&atilde;o, de uma por todas. Eles est&atilde;o do lado de Deus.. Como poderiam estar errados? Por que deveriam crer em outra coisa? Fundamentalismo. Obscurantismo. Terrorismo. Eles querem fazer-se anjos; fazem-se de bestas ou de tiranos. Tomam-se por Cavaleiros do Apocalipse. S&atilde;o os jan&iacute;zaros do absoluto, que eles pretendem possuir com exclusividade e que reduzem &agrave; dimens&atilde;o, singularmente estreita, de sua boa consci&ecirc;ncia. S&atilde;o prisioneiros da sua pr&oacute;pria f&eacute;, escravos de Deus ou do que consideram ser &ndash; sem provas &ndash; sua Palavra ou sua Lei&rdquo;[10].<br />
<br />
<strong><u>2. A verdade como hist&oacute;ria, como narrativa, como met&aacute;fora.</u></strong><br />
<br />
Jonathan Sacks diz que o juda&iacute;smo &eacute; repleto de hist&oacute;rias, segundo o dito judaico, &ldquo;Deus criou o homem porque gosta de hist&oacute;rias&rdquo;. A pr&oacute;pria B&iacute;blia &eacute; um dos exemplos fundamentais da verdade como hist&oacute;ria, ao contr&aacute;rio do modelo ocidental conhecido &ndash; a hist&oacute;ria como sistema [11]. O saber conceitual n&atilde;o &eacute; o mesmo do saber proverbial. O conhecimento absoluto n&atilde;o est&aacute; na mesma categoria do conhecimento intuitivo. A percep&ccedil;&atilde;o das entranhas n&atilde;o &eacute; a mesma da raz&atilde;o. Em outras palavras: pensar com as v&iacute;sceras e com o cora&ccedil;&atilde;o pode ser mais significativo do que capitular ao racionalismo.<br />
<br />
<u><strong>3. A verdade como compromisso com a vida.</strong></u><br />
<br />
De acordo com Michel de Foucault a &ldquo;verdade&rdquo; como conceito absoluto precisa do anteparo do poder. A verdade que prevalece n&atilde;o &eacute; necessariamente &ldquo;a&rdquo; verdade, mas aquela que as institui&ccedil;&otilde;es dominantes imp&otilde;em:<br />
&hellip; a verdade n&atilde;o existe fora do poder ou sem poder (n&atilde;o &eacute; &ndash; n&atilde;o obstante um mito, de que seria necess&aacute;rio esclarecer a hist&oacute;ria e as fun&ccedil;&otilde;es &ndash; a recompensa dos esp&iacute;ritos livres, o filho das longas solid&otilde;es, o privil&eacute;gio daqueles que souberam se libertar). A verdade &eacute; deste mundo; ela &eacute; produzida nele gra&ccedil;as a m&uacute;ltiplas coer&ccedil;&otilde;es e produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua &ldquo;pol&iacute;tica geral&rdquo; de verdade: isto &eacute;, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as inst&acirc;ncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as t&eacute;cnicas e os procedimentos que s&atilde;o valorizados para a obten&ccedil;&atilde;o da verdade; o estatuto daqueles que t&ecirc;m o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro [12].<br />
<br />
A ortodoxia se estabelece como o piso da ortopraxia. E a ortopraxia &eacute; o que anima a ortodoxia. Portanto, segundo David Bosch, na esteira do iluminismo, as igrejas antigamente &ldquo;se arrogavam do direito de determinar qual era a verdade &lsquo;objetiva&rsquo; da B&iacute;blia e de dirigir a aplica&ccedil;&atilde;o dessa verdade intemporal ao cotidiano dos crentes&rdquo;[13]. Bosch afirma que Schleiermacher &ldquo;foi o pioneiro em perceber que toda teologia era influenciada, se n&atilde;o determinada, pelo contexto em que evolu&iacute;ra&rdquo;[14].<br />
<br />
Dessa forma, Bosch chega &agrave; conclus&atilde;o que &ldquo; a reivindica&ccedil;&atilde;o universal da hermen&ecirc;utica da linguagem precisa ser contestada por uma hermen&ecirc;utica da a&ccedil;&atilde;o, porque fazer &eacute; mais importante que saber ou falar. Nas escrituras s&atilde;o bem-aventuradas as pessoas que agem. E eu concordo com ele que, &ldquo;n&atilde;o existe, em verdade, conhecimento exceto na pr&oacute;pria a&ccedil;&atilde;o, no processo de transformar o mundo atrav&eacute;s da participa&ccedil;&atilde;o na hist&oacute;ria&rsquo;&rdquo;. [15]<br />
<br />
<strong><u>4. A verdade como uma aproxima&ccedil;&atilde;o do sublime</u></strong>.<br />
<br />
Deslumbramento, ou fasc&iacute;nio pelo numinoso, o mist&eacute;rio tremendo, como queria Rudolf Otto.<br />
O rabino Abraham Joshua Heschel dizia que os gregos aprenderam para compreender. Os hebreus aprenderam para reverenciar. O homem moderno aprende para fazer uso de seu conhecimento [16]. E sugere um outro n&iacute;vel de conhecimento, que leve ao espanto, ao deslumbramento, ao<em> maravilhamento</em>. A verdade seria, portanto, um encontro com o sublime.<br />
<br />
Heschel define sublime como aquilo que podemos ver e n&atilde;o conseguimos definir. &Eacute; a alus&atilde;o silenciosa das coisas a um significado maior do que elas mesmas. &Eacute; o que todas as coisas definitivas simbolizam; &ldquo;o sil&ecirc;ncio inveterado do mundo que permanece imune &agrave; curiosidade e &agrave;s indaga&ccedil;&otilde;es, como uma folhagem perdida no anoitecer&rdquo;. O sublime &eacute; o que nossas palavras, f&oacute;rmulas e categorias n&atilde;o podem jamais alcan&ccedil;ar.<br />
<br />
Para o rabino, o sublime n&atilde;o est&aacute;, necessariamente, relacionado com o que &eacute; vasto e esmagador por suas dimens&otilde;es. &ldquo;O sublime pode ser percebido em cada gr&atilde;o de areia, em cada gota de &aacute;gua. Todas as flores no ver&atilde;o, todos os flocos de neve no inverno podem despertar em n&oacute;s uma sensa&ccedil;&atilde;o de <em>maravilhamento</em>, que &eacute; nossa resposta ao sublime&rdquo; [17]. Por isso, a verdade est&aacute; onde a mente n&atilde;o necessariamente consegue elucidar.<br />
<br />
Porque a verdade &eacute; sublime, porque o real est&aacute; no imponder&aacute;vel, porque a realidade n&atilde;o se limita aos contornos da racionalidade, nasce a poesia e minha verdade foi expressa no meu poema &ldquo;Sobre Deus&rdquo;:<br />
<br />
N&atilde;o sei explicar as raz&otilde;es da minha f&eacute;. N&atilde;o sei dizer os porqu&ecirc;s da minha devo&ccedil;&atilde;o. Sinto-me inadequado para convencer os indiferentes a desejaram a pitada do sal que tempera o meu viver. Tudo o que sei sobre o Divino &eacute; provis&oacute;rio. Minhas convic&ccedil;&otilde;es vacilam. Todas as certezas s&atilde;o, decididamente, vagas.<br />
<br />
Sei t&atilde;o somente que Ele se tornou a minha meta, o meu norte, a minha nostalgia, o meu horizonte, o meu atracadouro. Empenhei o futuro por seguir os seus passos invis&iacute;veis. No dia em que o chamei de Senhor, a extens&atilde;o do meu meridiano se alongou, os retalhos do meu mapa se encaixaram, ca&iacute;ram os tapumes da minha estrada, o ponteiro da minha b&uacute;ssola se imantou.<br />
<br />
Sei t&atilde;o somente que Ele se fez residente no campus dos meus pensamentos. Presente nos voos da minha imagina&ccedil;&atilde;o, virou um doce ponto de interroga&ccedil;&atilde;o. Causa de toda inquieta&ccedil;&atilde;o, tornou-se a fonte de minha clarivid&ecirc;ncia.<br />
<br />
Sei t&atilde;o somente que Ele se desfraldou como bandeira sobre os meus ombros. E o cil&iacute;cio, as purga&ccedil;&otilde;es, os sacrif&iacute;cios, tudo foi substitu&iacute;do por desassombro. No por&atilde;o da tortura, nos supl&iacute;cios culposos, achei um ambulat&oacute;rio. Os livros cont&aacute;beis onde se registravam meus erros foram rasgados. As puni&ccedil;&otilde;es, suspensas. J&aacute; n&atilde;o fujo dele como de um &Aacute;tila. Eu agora o chamo <em>deClemente.</em><br />
<br />
Sei t&atilde;o somente que Ele ardeu o delicado filamento que acende a luz dos meus olhos. Ele foi o mour&atilde;o que marcou o outeiro de minha alma como um jardim. Ele &eacute; o badalo que dobra o sino do meu cora&ccedil;&atilde;o; o alforje onde guardo os acertos e desacertos do meu destino.<br />
<br />
Sei t&atilde;o somente que Ele me fascina quando refrata luz. Dele vem o encarnado que tinge minha face com o rubor do sol. Seu amarelo me brinda com o a&ccedil;afr&atilde;o do mundo do mist&eacute;rio; e o roxo me colore de p&uacute;rpura real. Seu branco &eacute; lunar e me prateia. Seu preto me conduz at&eacute; o nanquim celestial. Por sua causa, espelho o azul dos oceanos mais long&iacute;nquos.<br />
<br />
O que dizer de Deus? T&atilde;o pouco! Espero, t&atilde;o somente, que o meu espanto expresse o tamanho da minha rever&ecirc;ncia.</span><br />
<br />
<em><strong><span style="font-size:14px;">Soli Deo Gloria</span></strong></em><br />
<br />
<span style="font-size:14px;"><em>Ricardo Gondim &eacute; escritor e te&oacute;logo,&nbsp; presidente&nbsp; da Conven&ccedil;&atilde;o Betesda Brasil.</em>&nbsp;<br />
E-mail: E-mail: <a href="http://ricardogondin2@gmail.com">ricardogondin2@gmail.com</a></span><br />
<br />
<span style="font-size:14px;"><strong><u>Refer&ecirc;ncias</u></strong></span><br />
<br />
<span style="font-size:14px;">[1][1] Alves, Rubem &ndash; Religi&atilde;o e Repress&atilde;o &ndash; Edi&ccedil;&otilde;es Loyola, S&atilde;o Paulo, 2005. p.44.<br />
<br />
[2][2] Armstrong, Karen &ndash; Em nome de Deus &ndash; Companhia das Letras, S&atilde;o Paulo, 2005, p.168.<br />
<br />
[3][3] Idem, p.168.<br />
<br />
[4][4] K&uuml;ng, Hans &ndash; O princ&iacute;pio de todas as coisas &ndash; Editora Vozes, S&atilde;o Paulo, 2007, p.62.<br />
<br />
[5][5] Idem, p.62.<br />
<br />
[6][6] Idem, p.62.<br />
<br />
[7][7] Alves, Rubem &ndash; Religi&atilde;o e Repress&atilde;o, Editor Loyola, S&atilde;o Paulo, p. 138.<br />
<br />
[8][8] Mendon&ccedil;a, Ant&ocirc;nio Gouv&ecirc;a &ndash; O Celeste Porvir, a Inser&ccedil;&atilde;o do Protestantismo no Brasil &ndash; Edi&ccedil;&otilde;es Paulinas, 1984, p.208.<br />
<br />
[9][9]Queiruga, Andr&eacute;s Torres &ndash; Creio em Deus Pai &ndash; Editora Paulus, S&atilde;o Paulo, 2005, p.21.<br />
<br />
[10][10] Comte-Sponville, Andr&eacute; &ndash; O esp&iacute;rito do ate&iacute;smo &ndash; Martins Fontes, S&atilde;o Paulo, 2007, p.32.<br />
<br />
[11][11] Sacks, Jonathan &ndash; &ldquo;Para curar um mundo fraturado &ndash; a &eacute;tica da responsabilidade, Editora Sefer, S&atilde;o Paulo, p. 23.<br />
<br />
[12][12] Foucault, Michel &ndash; Microf&iacute;sica do Poder, Edi&ccedil;&otilde;es Graal, S&atilde;o Paulo, 2007, p.12.<br />
<br />
[13][13] Bosch, David &ndash; Miss&atilde;o Transformadora &ndash; Mudan&ccedil;as de Pradigma na Teologia da Miss&atilde;o, Editora Sinodal, Rio G. do Sul, 2002, p.504.<br />
<br />
[14][14]Idem, p.505.<br />
<br />
[15][15] Idem, p.508.<br />
<br />
[16][16] Heschel, Abraham Joshua &ndash; Deus em busca do homem &ndash; Editora Arx, S&atilde;o Paulo, p.43.<br />
<br />
[17][17] Idem, p. 49.</span><br />
<br />

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