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Conversa com o espelho

admin -

<span style="font-size:14px;">No espelho, olhos nos olhos, reconhe&ccedil;o tr&ecirc;s inimigos em minha alma. Eu os encaro e procuro desafi&aacute;-los. Sei, por&eacute;m, que h&aacute; tempo os tr&ecirc;s me espreitam. S&atilde;o advers&aacute;rios sorrateiros. Eles gostam de me assombrar nas esquinas onde aguardo o fim da madrugada insone. Crio coragem para cham&aacute;-los por seus nomes: fracasso, impot&ecirc;ncia e culpa.<br />
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Fracasso &eacute; sentimento, nunca constata&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria uma derrota para algu&eacute;m se sentir fracassado. O sentimento de fracasso vem do destreino de lidar com inadequa&ccedil;&otilde;es. Depois de d&eacute;cadas absorvendo o discurso de perfei&ccedil;&atilde;o, confesso acometido, vez ou outra,&nbsp; pela sensa&ccedil;&atilde;o de derrota. Nesses epis&oacute;dios, minha fraqueza parece maior do que realmente &eacute;. Sem conseguir flechar alvos na mosca, me sinto fustigado por cobran&ccedil;as imateriais e o peso dos erros pesa como um fiasco monumental. Somem-se ainda as demandas religiosas, as press&otilde;es culturais e eu, como qualquer outro, me flagro arfando por compreens&atilde;o. Me fadigo s&oacute; de pensar que devo dissimular as minhas inaptid&otilde;es. O sujeito que me encara de dentro do espelho tem rugas profundas &ndash; e eu sei o porqu&ecirc;.<br />
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Me confesso calouro. Desafino a melodia da vida. N&atilde;o consigo sair das divis&otilde;es de base para ser escalado no time profissional. Piso na bola. Perco gols embaixo da trave. Muitas vezes me enrosquei em pecadilhos bobos por superestimar a minha capacidade de sair de enroscos. Me ensinaram que os erros passados tendem a retornar como um bumerangue. Agora sei que essas amea&ccedil;as objetivam manter as pessoas bem comportadas. Digo ao homem que me espia de dentro do espelho que se transgredi alguma lei eterna, e se ofendi a divindade, espero mais por uma miseric&oacute;rdia infinita do que por uma justi&ccedil;a pontual.<br />
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Se me entrevistam sobre convic&ccedil;&otilde;es, gaguejo. Busco fazer um caminho pr&oacute;prio, mas trope&ccedil;o em meus cadar&ccedil;os frouxos. Obrigado a ouvir quase diariamente discursos doutrinariamente corretos, sinto n&atilde;o caber na roda onde sentam os mestres da ortodoxia. N&atilde;o quero ser apolog&eacute;tico. Como n&atilde;o alcancei galgar os degraus mais altos da piedade, tamb&eacute;m n&atilde;o almejo a c&aacute;tedra de Mois&eacute;s.<br />
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Ou&ccedil;o pregadores da culpa, especialistas em conscientizar os outros sobre as exig&ecirc;ncias divinas, e s&oacute; tenho desd&eacute;m. Quanto mais esbravejam menos consigo entender os motivos que levam as pessoas a frequentar uma religi&atilde;o que os constrange e os massacra.<br />
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Em minha exaust&atilde;o, diante do espelho, despeda&ccedil;o o &iacute;cone que tentaram forjar em mim. N&atilde;o alimento mitos ilus&oacute;rios. Aconselho a minha alma a permanecer comum. Lembro a mim mesmo que m&aacute;scaras podem grudar na cara da gente; e mesmo sozinho, eu n&atilde;o conseguiria me desvencilhar delas.<br />
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Os anos correm velozes. Agora, mais do que nunca, me vejo obrigado a admitir: n&atilde;o sou onipotente. Devo me despir da obrigatoriedade de desempenhar como os messias &ndash; ainda n&atilde;o aprendi a decretar milagre com a efici&ecirc;ncia dos sacerdotes mais ungidos.<br />
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A propaganda sobre poder espiritual n&atilde;o me fascina. Na verdade, quero fugir da tenta&ccedil;&atilde;o de encabrestar a vida. Argumentei, preguei e ensinei em audit&oacute;rios grandes, pequenos, ricos, pobres, eruditos e simples. Depois de tudo, tenho que admitir: muito dos meus argumentos jazem no esquecimento das pessoas. Meus ouvintes guardaram apenas o que lhes convinha. Para muitos, falhei em comunicar o que eu valorizei tanto.<br />
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<img alt="" src="http://www.afnoticias.com.br/administracao/files/images/gondim.jpg" style="width: 299px; height: 203px; border-width: 0px; border-style: solid; margin-left: 5px; margin-right: 5px; float: right;" />Nunca me imaginei genial. Nenhum conhecimento me chegou f&aacute;cil. Aprendi devagar. Fui obrigado a ler o dobro para aprender um m&iacute;nimo. N&atilde;o decoro. Esque&ccedil;o r&aacute;pido o que acabei de estudar. Os in&uacute;meros volumes que devorei n&atilde;o ajudaram a me tornar perspicaz. Agora me aproximo do fim. Minha capacidade de atinar para al&eacute;m das fronteiras do pensamento chega, perigosamente, perto do limite.<br />
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Sofri porque fui bronco, um teimoso quando devia antecipar incidentes. Houve ocasi&atilde;o em que fui ing&ecirc;nuo. Eu n&atilde;o soube proteger as costas de conspira&ccedil;&otilde;es insidiosas. Quase adoeci quando invejosos tentaram me destruir. N&atilde;o intui, e fatos cru&eacute;is me assustaram.<br />
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Depois que enfrento os meus tr&ecirc;s grandes inimigos &ndash; fracasso, impot&ecirc;ncia e culpa &ndash; , fa&ccedil;o as pazes comigo mesmo. Questiono quem subiu o sarrafo existencial t&atilde;o alto e digo que &eacute; falsa a ideia de que podemos controlar todas as vari&aacute;veis da exist&ecirc;ncia. Repito: se culpa tem algum efeito terap&ecirc;utico, ela deve ser passageira; caso permita que ela se enra&iacute;ze em mim, me arraso em autocomisera&ccedil;&atilde;o.<br />
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N&atilde;o preciso ser campe&atilde;o em nada. Celebro a minha identidade sem precisar me explicar e o meu dia sem atender ao imperativo de quem me quer perfeito. Ergo a cabe&ccedil;a. O meu valor n&atilde;o depende de cumprir roteiro que outros rabiscam em meu nome. Pisoteio, assim, o fantasma do fracasso. Todavia, n&atilde;o esque&ccedil;o: o dem&ocirc;nio da vaidade me acena em cada f&ocirc;lego. Preciso saber lidar com ele. Neste di&aacute;logo tenso comigo mesmo, sigo adiante sem esquecer de elogiar essa esquisitice chamada vida.<br />
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<strong><u>Sobre o autor</u></strong></span><br />
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<span style="font-size:14px;">Ricardo Gondim &eacute; escritor e te&oacute;logo, presidente da Conven&ccedil;&atilde;o Betesda Brasil.<br />
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E-mail: <a href="http://Ricardo Gondim é escritor e teólogo, presidente da Convenção Betesda Brasil. E-mail: ricardogondin2@gmail.com">ricardogondin2@gmail.com</a></span>

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