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Leopoldina e a Independência do Brasil: um olhar histórico

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<span style="font-size:14px;"><u>Raylinn Barros da Silva</u><br />
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Considerado um dos temas mais cl&aacute;ssicos da historiografia brasileira, a Independ&ecirc;ncia do Brasil foi um acontecimento hist&oacute;rico ocorrido no dia 7 de setembro do ano de 1822 quando durante uma viagem &agrave; Prov&iacute;ncia de S&atilde;o Paulo, Pedro de Alc&acirc;ntara, pr&iacute;ncipe regente do Brasil, p&ocirc;s fim a tr&ecirc;s s&eacute;culos de depend&ecirc;ncia do Brasil em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Portugal. Nos livros did&aacute;ticos de Hist&oacute;ria do Brasil esse tema louva a atitude Pedro de Alc&acirc;ntara como o her&oacute;i da independ&ecirc;ncia que montado em um cavalo, rodeado por seus compatriotas, braveja o famoso grito: &ldquo;Independ&ecirc;ncia ou morte!&rdquo;.<br />
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Mas o que teria levado o futuro Dom Pedro I a tomar essa decis&atilde;o quando num ato de rompante desobedeceu a seu pai, Dom Jo&atilde;o VI, na &eacute;poca rei de Portugal e desligou o Brasil daquele reino europeu? Qual o contexto hist&oacute;rico de antes de 1822 no Brasil que contribuiu para esse desfecho? E qual o papel de dois personagens fundamentais para o processo de independ&ecirc;ncia do Brasil, Jos&eacute; Bonif&aacute;cio de Andrada e Silva e mais ainda, o papel da imperatriz Leopoldina, esposa de Pedro de Alc&acirc;ntara, que hoje &eacute; considerada por nomes de grosso calibre da nossa historiografia como aquela que teria sido a principal articuladora da independ&ecirc;ncia?<br />
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Considero importante ressaltar que, como tudo na Hist&oacute;ria &eacute; um processo, ou seja, nada acontece por acaso, vale dizer que a Independ&ecirc;ncia do Brasil n&atilde;o foi um fato isolado no in&iacute;cio do s&eacute;culo XIX. Ele tem ra&iacute;zes hist&oacute;ricas nos dois s&eacute;culos anteriores. Nesse sentido, para entendermos os acontecimentos de 1822, &eacute; preciso voltar nossos olhos para os s&eacute;culos XVII e XVIII. No primeiro s&eacute;culo explodiu a Revolta dos Beckman (1684), e no seguinte: Guerra dos Emboabas (1708-1709), Guerra dos Mascates (1710-1711), Revolta de Vila Rica (1720), a Inconfid&ecirc;ncia Mineira (1789) e por &uacute;ltimo, a Conjura&ccedil;&atilde;o Baiana (1798). Essas revoltas que sacudiram o pa&iacute;s, em menor ou maior grau, questionaram os la&ccedil;os coloniais e acenderam uma chama que ser&aacute; imprescind&iacute;vel no in&iacute;cio do s&eacute;culo XIX: a liberdade.<br />
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Mas um acontecimento marca profundamente o processo de independ&ecirc;ncia do nosso pa&iacute;s. Esse acontecimento consistiu na transfer&ecirc;ncia da corte portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro no in&iacute;cio de 1808. Sabemos que no in&iacute;cio do s&eacute;culo XIX Napole&atilde;o Bonaparte &ldquo;varria&rdquo; a Europa com sua pol&iacute;tica expansionista. Como seu principal inimigo em solo europeu era a poderosa Inglaterra e como Portugal era forte aliado da coroa inglesa, a situa&ccedil;&atilde;o portuguesa se complicou. Assim, o chamado Bloqueio Continental e as rela&ccedil;&otilde;es pr&oacute;ximas entre Portugal e Inglaterra foram fundamentais para a decis&atilde;o de transfer&ecirc;ncia da corte de Lisboa para o Rio de Janeiro.<br />
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Da noite para o dia, o Brasil se transformou na sede da Coroa. H&aacute; consenso tamb&eacute;m entre os historiadores que a chegada da Corte e a instala&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, administrativas e jur&iacute;dicas do governo portugu&ecirc;s no Rio de Janeiro de forma particular, mas em todo o Brasil de forma geral, acarretaram em diversas mudan&ccedil;as na Col&ocirc;nia. Assim, essas mudan&ccedil;as deram in&iacute;cio a um processo que resultar&aacute; 14 anos depois, na Independ&ecirc;ncia do Brasil em 1822.<br />
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Dentre as mudan&ccedil;as pelas quais passou o pa&iacute;s, podemos nomear como as principais: a abertura dos portos para transa&ccedil;&otilde;es comerciais com outras na&ccedil;&otilde;es, aumento populacional, fluxo migrat&oacute;rio entre v&aacute;rias regi&otilde;es, cria&ccedil;&atilde;o de novos estabelecimentos comerciais, cria&ccedil;&atilde;o de institui&ccedil;&otilde;es como o Banco do Brasil, a Biblioteca Real, a Escola Real de Ci&ecirc;ncias, o Horto Real, e a funda&ccedil;&atilde;o da Imprensa R&eacute;gia. Para alguns historiadores dentre os quais me incluo, essas transforma&ccedil;&otilde;es oxigenaram a sociedade brasileira, pondo fim ao antigo exclusivismo comercial, o que de fato foi considerado como o marco da ruptura do chamado Pacto Colonial.<br />
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Outro fato foi importante. Em 1820 explodiu em Portugal o que ficou conhecido como a Revolu&ccedil;&atilde;o Liberal do Porto. Essa agita&ccedil;&atilde;o portuguesa exigiu o retorno da Corte para Lisboa. Assim, em 1821, Dom Jo&atilde;o e sua Corte regressaram a Portugal deixando no Brasil como regente Pedro de Alc&acirc;ntara. Esse fato &eacute; importante, pois com a chegada da Corte em Lisboa, os pol&iacute;ticos portugueses come&ccedil;am a pressionar o Rei a recolonizar o Brasil, para esses pol&iacute;ticos portugueses, o Brasil deveria voltar &agrave; situa&ccedil;&atilde;o de col&ocirc;nia e ser reabilitado o antigo Pacto Colonial. Essa tentativa de recoloniza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s desagradou &agrave;s elites brasileiras. Os la&ccedil;os com Portugal estavam com os dias contados.<br />
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Nesse ambiente, o parlamento portugu&ecirc;s determinou o retorno de Pedro de Alc&acirc;ntara &agrave; Lisboa. Pressionado, ele decide ficar no Brasil, epis&oacute;dio que passou &agrave; Hist&oacute;ria como o &ldquo;Dia do Fico&rdquo;. Portugal se assustou, o Brasil dava sinais que n&atilde;o levaria mais adiante a depend&ecirc;ncia com a Coroa. A partir da&iacute;, as elites locais passaram a pressionar Pedro de Alc&acirc;ntara para que viesse a romper os la&ccedil;os coloniais com a metr&oacute;pole.<br />
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Em junho de 1822, o regente convoca uma Assembleia Constituinte com o objetivo de analisar a validade das leis portuguesas no Brasil. Essa medida de Pedro de Alc&acirc;ntara provoca um verdadeiro alvoro&ccedil;o no parlamento portugu&ecirc;s. Como consequ&ecirc;ncia desse ato, Lisboa envia despachos ao Brasil anulando e revogando os decretos assinados pelo pr&iacute;ncipe regente e determinando seu imediato retorno &agrave; Lisboa. Era tudo ou nada. A&iacute; entraram em cena dois personagens fundamentais nesse momento da Hist&oacute;ria do Brasil, Jos&eacute; Bonif&aacute;cio de Andrada e Silva e a imperatriz Leopoldina.<br />
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Um dos l&iacute;deres dentro do Partido Brasileiro, da corrente conservadora e aristocrata, Jos&eacute; Bonif&aacute;cio liderava um grupo formado por grandes propriet&aacute;rios rurais e membros da elite brasileira que haviam estudado na Universidade de Coimbra, em Portugal, na qual tiveram contato com as ideias iluministas do final do s&eacute;culo XVIII. A princ&iacute;pio, Bonif&aacute;cio n&atilde;o era simp&aacute;tico &agrave; independ&ecirc;ncia do Brasil, temia a fragmenta&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio brasileiro caso o pa&iacute;s se transformasse numa Rep&uacute;blica. No entanto com as exig&ecirc;ncias recolonizadoras da Corte de Lisboa, ele passou a apoiar ativamente a Independ&ecirc;ncia. Como conselheiro do pr&iacute;ncipe regente, se transformou num importante articulador do processo que levou &agrave; separa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica de 1822.<br />
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Mas havia uma pessoa mais pr&oacute;xima ainda do pr&iacute;ncipe regente do que Jos&eacute; Bonif&aacute;cio. Essa pessoa dividia o quarto com o futuro imperador, nada mais nada menos que sua esposa: Leopoldina. Embora conservasse a imagem de esposa dedicada a Dom Pedro, que sofria constantemente com as trai&ccedil;&otilde;es do marido, havia outro lado na arquiduquesa: a de estrategista pol&iacute;tica. Hoje, ao mesmo tempo em que se conserva uma imagem dom&eacute;stica de Leopoldina, avan&ccedil;a os estudos e novas leituras que a reabilitam como uma das personagens femininas mais importantes da hist&oacute;ria do nosso pa&iacute;s, talvez a maior delas.<br />
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Foi partid&aacute;ria da Independ&ecirc;ncia do Brasil. Por esse motivo aproximou-se de Jos&eacute; Bonif&aacute;cio porque sabia da influ&ecirc;ncia deste sobre o seu marido. Fazia reuni&otilde;es secretas com auxiliares diretos do marido e segundo consta instru&iacute;a-os a aconselhar seu marido das consequ&ecirc;ncias positivas de um Brasil independente. Apoiou com firmeza a perman&ecirc;ncia do marido no Brasil quando a Corte o chamava de volta a Portugal. Estrategista viu antes que muitos, que a desobedi&ecirc;ncia do marido &agrave; Lisboa e sua perman&ecirc;ncia em solo brasileiro levaria a uma consequ&ecirc;ncia imediata: a Independ&ecirc;ncia.<br />
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Acredita-se que suas articula&ccedil;&otilde;es a colocam como defensora da Independ&ecirc;ncia antes mesmo que o pr&oacute;prio marido.&nbsp; Outra prova de sua habilidade foram as cartas endere&ccedil;adas ao pai, Francisco II, monarca da &Aacute;ustria na &eacute;poca. Nelas, a arquiduquesa intercedeu diplomaticamente, em 1823, para que a &Aacute;ustria reconhecesse o Brasil como pa&iacute;s independente e assumisse o papel de aliado do Brasil na Europa.<br />
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Mesmo considerando ser o Brasil o seu lugar, confidenciava aos mais &iacute;ntimos que era um sacrif&iacute;cio viver na Am&eacute;rica. Isso nos faz pensar que a &aacute;rdua tarefa de cumprir os des&iacute;gnios de sua dinastia se transformou na &ldquo;v&aacute;lvula&rdquo; de escape capaz de amenizar a dor e o sofrimento de n&atilde;o ser correspondida pelo marido que constantemente a tra&iacute;a com Domitila, a famosa Marquesa de Santos, debaixo dos seus olhos. Por fim, por sua fidelidade ao marido e mais ainda, &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o da monarquia, Leopoldina passou por sacrif&iacute;cios para conservar o poder e teve papel fundamental na Independ&ecirc;ncia do Brasil.<br />
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<em><span style="font-size:14px;"><img alt="" src="http://www.afnoticias.com.br/administracao/files/images/IMG_20140907_154441956.jpg" style="width: 235px; height: 292px; border-width: 0px; border-style: solid; margin-left: 5px; margin-right: 5px; float: left;" /></span></em><br />
<u><strong><em><span style="font-size:14px;">Raylinn Barros da Silva</span></em></strong></u><br />
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<em><span style="font-size:14px;">&Eacute; Licenciado em Hist&oacute;ria e Especialista em Ensino de Hist&oacute;ria pela Universidade Federal do Tocantins. Professor efetivo da rede estadual de ensino do Tocantins lecionando Hist&oacute;ria, Filosofia e Sociologia no Ensino M&eacute;dio. Tem artigos cient&iacute;ficos e resenhas publicadas em peri&oacute;dicos e revistas na &aacute;rea da Hist&oacute;ria. &Eacute; autor do livro &ldquo;Pedro Milagroso: o mendigo que virou santo&rdquo;.</span></em>

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