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Advogada inscrita na OAB Tocantins luta para inocentar filho suspeito de organização terrorista

Redação AF - |
Foto: Marlene Bergamo/Folha Press
Advogada Zaine El Kadri, de 57 anos.

A advogada Zaine El Kadri, de 57 anos, inscrita na Ordem dos Advogados do Brasil Seccional do Tocantins (OAB-TO), luta na justiça para inocentar o filho acusado de promover organização terrorista antes das Olimpíadas do Rio de Janeiro. A história dessa mãe aguerrida foi contada pelo jornal Folha de S. Paulo.

Formada em direito pela Fafich (hoje UnirG), de Gurupi, Zaine não tem escritório e faz advocacia voluntária, “na OAB, em lugar público ou porta de casa”, diz. Zaine é católica praticante, filha de um libanês que, segundo ela, lia o Alcorão mas era cristão maronita.

Registrada na OAB do Tocantins, Zaine foi recentemente suspensa do exercício da advocacia por sete meses (de 02/09/2016 a 30/03/2017) por retenção de autos por prazo superior ao autorizado. Contudo, manteve-se na defesa do filho por decisão do juiz federal Marcos Josegrei da Silva, responsável pela Operação Hashtag.

Foto: Arquivo Pessoal
Leonid, de 33 anos, está preso em Campo Grande

Durante visita ao filho Leonid, de 33 anos, preso há nove meses na Penitenciária Federal de Campo Grande, de segurança máxima, a advogada Zaine chegou em dois mototáxis: um para carregá-la, outro só para a mala roxa atulhada de documentos que levou consigo.

Como sempre, o fez a visita na condição de advogada, o que significa que só fala com Leonid pelo interfone do parlatório, separados por um vidro.

Ela poderia também visitá-lo na condição de mãe, e aí o encontraria no pátio, onde seria possível terem contato físico. Mas ambos abriram mão da segunda opção.

A mãe acatou o pedido do filho para não receber visitas de nenhum familiar. Ele diz que, dada a periculosidade dos integrantes de facções criminosas presos ali, teme pela segurança dos parentes.

Os filhos Leonid e Valdir viraram muçulmanos na cadeia, quando cumpriam pena por assalto e homicídio, crimes que até hoje a família nega. Em depoimento à PF, Leonid disse ter encontrado no islã “apoio e paz necessários para aguentar a situação difícil que vivia” e que simpatizou com a religião porque o avô materno era muçulmano.

Foto: Folha de S. Paulo
Advogada alugou um quarto em Campo Grande para ficar próximo ao filho

‘GARRA’ na defesa do filho

Ao ser informado da suspensão do registro da advogada, o juiz federal a cargo da Operação Hashtag, Marcos Josegrei da Silva, descartou anular o processo: “Como salientado pelo Ministério Público Federal, a advogada exerceu com muita ‘garra’ a defesa técnica de seu filho, não podendo ser o referido acusado prejudicado com a suspensão profissional de sua defensora”.

Mas classificou de “reprovável e desprovida de boa-fé” a conduta dela de atuar nos autos enquanto estava suspensa e solicitou ao Ministério Público a instauração de investigação sobre o caso.

Zaine, que não está vivendo no Tocantins, diz que não sabia da suspensão.

Sobre o desafio de defender o próprio filho, ela comenta: “Tem horas que penso que não tenho alma nem coração, porque é muito difícil. Mas quem vai poder defendê-lo como eu estou defendendo?”.

As petições ao juiz Josegrei, nas quais insiste em pedir a absolvição sumária de Leonid, segundo ela vítima de uma série de conspirações e abusos, chama a atenção pela extensão e prolixidade. Em geral são dezenas de páginas contendo jurisprudência, cópias de reportagens, fotos de família etc.

A última petição, protocolada na quinta (20), é aberta com os dizeres: “+ EXTINTO VALDIR PEREIRA DA ROCHA EM 15/10/2016 +”, referência ao filho assassinado, e “Se Maomé não vem à montanha, a montanha vem à Maomé!”.

Num trecho do documento, ao mencionar a greve de fome de Leonid, escreveu: “Se Vossa Excelência demora na decisão final é por conta que não encontra melhor caminho para condenação, então, [Leonid] prefere a greve de fome até se extinguir! Quer um final onde possa prevalecer seu direito de funeral islâmico (…)”.

A defensora pública Rita Cristina de Oliveira, que defende outros réus no processo, considera que a “confusão entre a situação de mãe e de advogada” atrapalha a defesa de Leonid e disse já ter alertado o juiz sobre sua posição.

Se considerassem que o réu não estava sendo bem defendido, o juízo ou o Ministério Público poderiam destituir a advogada e acionar outro defensor, mas isso não foi feito.

Foto: Marlene Bergamo/Folha Press
Ela chega de moto táxi na penitenciária para visitar filho.

ANDARILHA

Natural de Porto Murtinho (MS), Zaine é uma andarilha. Já viveu em todos os Estados do Centro-Oeste e no Tocantins. Com a prisão de Leonid, deixou Cuiabá e alugou um quarto em Campo Grande para estar perto do filho.

No quarto, muito simples e abarrotado de documentos do processo, dorme numa rede. Tem um computador para redigir as petições e, à mão, registra num diário seus tormentos mais recentes.

De fala mansa, costuma ter jorros verbais com digressões que tornam impossível ao interlocutor compreender o que quer dizer. Associa tragédias da família (morte do pai, de uma filha, um acidente que lhe custou uma vista etc.) a conspirações. Parece ser uma mulher muito forte, mas às vezes acusa os golpes. Ao mostrar à reportagem papéis sobre a morte do filho Valdir, chorou.

Teve quatro filhos biológicos (Leonid é um deles) e seis de criação (entre eles Valdir). É divorciada do pai de Leonid. Tem nove netos, sendo dois de Valdir e um de Leonid.

Folha de S. Paulo.

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