Seet
Sobral – 300×100

Material cirúrgico de 800 reais é vendido por 8 mil ao Plansaúde, com superfaturamento de 900% e propina

Redação AF - |
Foto: Divulgação
PF cumpriu mandados no Plansaúde - plano de saúde dos servidores públicos

“É absolutamente preocupante a situação do Plansaúde”. A afirmação é do juiz federal João Paulo Abe, da 4ª Vara Federal do Tocantins, ao relatar a farra da propina e do superfaturamento na compra de materiais cirúrgicos pelo Plansaúde. O magistrado foi quem autorizou a Operação Marcapasso para desarticular o grande esquema de corrupção envolvendo médicos, empresários e servidores da saúde.

O plano de saúde público dos servidores do Tocantins também atende aos aposentados e pensionistas do Igeprev. Ele é gerido ‘concretamente’ pela Unimed Centro-Oeste, mas, segundo o juiz, faz uma ‘duvidosa gestão’ e também “concorre para o direcionamento de contratações e para a licitação simulada.”

“O resultado do sucessivo pagamento de procedimentos médicos com sobrepreço é sentido na administração do Plansaúde, cujo manifesto comprometimento financeiro não é ignorado pelo segmento empresarial”, alertou o juiz João Paulo Abe.

Em conversa interceptada pela Polícia Federal entre o operador da empresa Nordestemed, Vasco da Silva Areias, e um homem ainda não identificado, eles falam sobre o rombo de R$ 60 milhões no plano e o esquema de superfaturamento na ortopedia.

SUPERFATURAMENTO DE 1.150%

O homem fala que o Governo paga R$ 25 mil por um ureter que custa R$ 2 mil – superfaturamento de 1.150%.

– O hospital superfatura. Na ortopedia é superfaturamento em cima de superfaturamento. A ortopedia vai quebrar o Plansaude. Na cirurgia de joelho a fatura de material é exorbitante, diz o homem na gravação.

Já o representante da empresa, Vasco Areias diz que “uns [médicos] que pedem o que devem e o que não devem nos procedimentos cirúrgicos”. Segundo ele, as grandes empresas fornecedoras disponibilizam equipamentos em comodato e assim exigem que os hospitais e/ou médicos peçam seus produtos especificamente. Eles chegavam a ganhar R$ 120% sobre os preços da tabela SIMPRO.

PREÇO DA UTI COM 100%

Em outro momento da conversa eles falam sobre a rentabilidade dos leitos de UTI.

“VASCO fala que não mexeram com a INTENSICARE, não mexeram em nenhuma UTI e eles estão deitando e rolando a UTI de Palmas é o dobro do preço de Goiânia. Hoje são mais de 200 leitos de UTI em palmas, tudo nas mãos de um gestor só. Em Araguaina, no Dom Orione ele tem 15 leitos. Tá rico, ficou inteligente. O mais caro é cárdio, nefro e ortopedia. Tem cirurgia de cárdio que é R$ 200.000,00. Tem cirurgia de R$ 400.000,00!”, diz o relatório da Polícia Federal.

Conforme a delação dos empresários da Cardiomed, de Araguaína, a Unimed Centro-Oeste é a responsável por adquirir os produtos de vários fornecedores para utilização pelo Plansaúde, produtos específicos órteseses, próteses e materiais especiais.

Segundo as informações prestadas à PF, a Unimed Confederação cobrava uma taxa de 20% a 30% do valor do produto vendido pelas empresas fornecedoras. Além das ‘taxas’ (propinas) que eram pagas à Unimed Confederação, havia ainda o pagamento de taxas (propinas) para os médicos e outra taxa (propina) para o hospital.

FARRA DAS PROPINAS

O delator exemplificou a farra das propinas: “A título de exemplo, o stent farmacológicos (com drogas) era fornecido para o Plansaude por R$ 18.000,00 e deste valor era repassado R$ 8.000,00 ao médico e o preço de custo para a empresa distribuidora é de cerca de R$ 2.200,00”.

Ele esclarece que para a implantação do stent, ainda são necessários outros materiais, tais como: introdutor, fio guia, catéter guia e balão coronário, sendo estes também superfaturados sobre os quais também eram pagos comissões aos médicos. Neste caso, o valor total dos produtos chega em torno de R$ 25 mil.

PREÇOS NO SUS E NO PLANSAÚDE

O valor da ‘comissão’ variava de acordo com a quantidade de stents utilizados no procedimento: no SUS, por exemplo, 1 stent custa R$ 800; 2 stents – R$ 1.600,00 e para 3 stents – R$ 2.400,00.

Já no Plansaúde, o valor de 1 stent cresce 900%, ou seja, R$ 8 mil. Dois stents custam R$ 14 mil e três stents saem por absurdos R$ 20 mil.

Propinas estavam sendo pagas até mesmo na rede privada de hospitais e clínicas, no percentual de 20% sobre o valor total. Segundo o delator, se não tivesse que pagar comissões para médicos e Hospitais, poderia fornecer os produtos, no mínimo, pela metade do valor.

Dez médicos foram presos pela Polícia Federal durante a execução da Operação Marcapasso. Oito foram liberados após o pagamento de fiança e dois tiveram as prisões preventivas decretadas.

VEJA MAIS…

Justiça decide manter prisão de médicos articuladores de fraudes por tempo indeterminado

Equipamentos de hospital público foram desviados por médicos para clínicas particulares, revela PF

Empresa de Araguaína pagou R$ 4,3 milhões de propina a médicos, aponta relatório da PF

Pai do governador é suspeito de cobrar propina para acelerar pagamentos às empresas

Comentários pelo Facebook: