Objetivo seria ocupar irregularmente terras na Gleba Taquaruçu; caso foi enviado à PF.
Notícias de Palmas - Uma denúncia anônima enviada à Polícia Federal e obtida com exclusividade pelo AF Notícias revela indícios de uma organização criminosa formada para promover a invasão de terras da União destinadas à reforma agrária na Gleba Taquaruçu, em Palmas.
O caso envolve o Projeto de Assentamento Sítio (PA Sítio), área sob gestão do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), e descreve supostas práticas de fraude, estelionato e uso indevido do nome da autarquia para enganar famílias cadastradas em processo seletivo oficial.
De acordo com o documento, o grupo teria mobilizado cerca de 90 pessoas por meio de redes sociais e aplicativos de mensagens, criando um grupo de WhatsApp chamado “Grupo dos pessoal que já fizeram o cadastro (sic)”. No espaço, foram compartilhados vídeos e mensagens que mostram barracos sendo erguidos e incentivos à ocupação da área, mesmo sem qualquer autorização formal.
A denúncia cita nomes, telefones e chaves Pix de pessoas que estariam cobrando valores de até R$ 150 das famílias, sob o pretexto de garantir um lote dentro do assentamento. Os pagamentos seriam direcionados a contas pessoais, o que indicaria obtenção de vantagem ilícita.
O texto também alerta para o uso indevido do nome do Incra, inclusive com indivíduos se passando por servidores do órgão, além do emprego de símbolos e bandeiras de movimentos sociais como forma de dar aparência de legitimidade às ações.
Um morador da região confirmou que os 40 lotes do projeto de assentamento foram invadidos e que alguns desses invasores estariam armados e praticando ações intimidatórias.
Incra afirma que não autoriza nem apoia invasões
O Incra informou que não tinha conhecimento prévio da denúncia até ser contatado pela reportagem e destacou que não autoriza nem apoia invasões em seu nome.
Em nota, a Superintendência Regional do Tocantins explicou que o PA Sítio foi criado a partir da desapropriação de terras improdutivas e que todas as 40 vagas serão preenchidas exclusivamente por meio do processo seletivo regular, realizado entre 8 e 22 de setembro, que recebeu mais de mil inscrições.
Ainda segundo o órgão, um conciliador agrário esteve no local no dia 3 de novembro e conversou com cerca de 20 famílias que iniciavam acampamento na área, esclarecendo que somente os aprovados no processo oficial terão direito à posse dos lotes.
A autarquia informou que já adotou providências junto aos órgãos de segurança pública para garantir a ordem, a integridade das famílias e a proteção do patrimônio público federal. (Veja a nota completa do Incra abaixo)
Sobre a investigação
A Polícia Federal, em nota, confirmou o recebimento do documento e informou que o caso será apurado, mas que não pode comentar detalhes enquanto as investigações estiverem em andamento.
Riscos e impacto
O documento entregue à PF alerta que, se confirmadas, as práticas podem configurar crimes de associação criminosa, invasão de terras públicas, falsidade ideológica e estelionato.
O texto também chama atenção para o risco de prejuízo sistêmico à credibilidade dos processos de reforma agrária, o que poderia desestimular famílias que participam de forma legítima e dentro das regras.

Como funcionava o esquema
Criação de grupos e narrativa de “atalho”
Promotores do esquema criavam grupos no WhatsApp e Telegram com nomes que sugeriam prioridade no processo seletivo (ex.: “Grupo dos que já fizeram cadastro”). Nesses espaços, anunciavam que poderiam garantir lotes mediante pagamento simbólico.
Recrutamento e ocupação coordenada
Os organizadores mobilizavam dezenas de famílias para ocupar fisicamente os lotes. A montagem de barracos e a permanência contínua serviam para criar aparência de posse e pressionar o Incra.
Cobrança por intermediação
Era solicitado pagamento via Pix ou transferência bancária - valores citados na denúncia chegam a R$ 150 por família. As transações iam para contas pessoais ou de “laranjas”, camuflando o benefício ao grupo.
Uso indevido do nome do Incra e falsos representantes
Integrantes do grupo se apresentavam como “representantes do Incra” ou “conciliadores”, utilizando documentos falsos, carimbos e linguagem técnica para dar aparência de legalidade às cobranças.
Produção e circulação de provas manipuladas
Eram compartilhadas fotos e vídeos de barracos e listas de presença como suposto comprovante de prioridade, a fim de pressionar autoridades e enganar candidatos idôneos.
Ocultação de responsabilidades
Quando questionados, os organizadores apagavam mensagens e arquivos, dispersavam o grupo e dificultavam o rastreamento dos pagamentos.
Sinais de alerta para famílias
Pedido de pagamento via Pix ou conta pessoal para “garantir” lote.
Convite para participar de “lista paralela” fora do edital oficial.
Pessoas que se apresentam como “do Incra” sem identificação funcional.
Pressão para ocupar a área sem convocação formal do Incra.
Documentos que podem ajudar na investigação
Capturas de tela de conversas e comprovantes de Pix.
Vídeos e fotos datadas da ocupação.
Lista de nomes e contatos compartilhados nos grupos.
Comprovantes de transferência e extratos bancários.
Consequências legais (se confirmadas)
Os envolvidos podem responder por associação criminosa, estelionato, falsidade ideológica e invasão de terras públicas, além de responsabilidade civil por danos ao erário e ações penais com possível adoção de medidas cautelares.
Nota do INCRA
"Em relação à denúncia de que um grupo organizado estaria utilizando indevidamente o nome do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), para promover invasões e cobrar valores de famílias interessadas, sob o falso argumento de garantir vagas em área federal vinculada ao Projeto de Assentamento (PA) Sítio, localizado em Palmas/TO, o Incra, por meio da sua Superintendência Regional no Tocantins, esclarece que:
O Projeto de Assentamento Sítio foi criado por meio da desapropriação de terras particulares consideradas improdutivas, sendo, portanto, paga a devida indenização, conforme estabelece a Constituição Federal.
O Incra reitera que não incentiva, não apoia e nem autoriza invasões de terras em seu nome. Ressalta ainda que ninguém fora do quadro do Incra ou sem autorização expressa da Superintendência está autorizado a falar ou agir em nome do Instituto.
O Incra/TO informa ainda que, na tarde do dia 3 de novembro de 2025, um servidor e Conciliador Agrário Regional da Superintendência esteve no local e dialogou com cerca de 20 famílias que estavam iniciando acampamento na área.
Durante a visita, foi esclarecido que as 40 vagas disponíveis no PA Sítio serão preenchidas pelas famílias aprovadas no processo de seleção conduzido pelo Incra entre os dias 8 e 22 de setembro de 2025, com inscrições realizadas em Taquaruçu e também de forma on-line, que contou com 1.015 candidatos inscritos, incluindo as famílias que se encontram na área.
Nesse sentido, a Superintendência reitera que a seleção de famílias para assentamentos do Incra é pública e ocorre em obediência à Lei nº 8.629/93, ao Decreto nº 9.311/2018 e à Instrução Normativa do Incra nº 140/2023.
Além disso, a Superintendência Regional do Incra já está adotando as providências necessárias junto aos órgãos de segurança pública competentes para garantir a ordem, a integridade das famílias e a proteção do patrimônio público federal.
Por fim, o Incra/TO reafirma seu compromisso com a transparência, a legalidade e a justiça social, e reforça que todos os processos de seleção e titulação são conduzidos com base em critérios técnicos, públicos e verificáveis, garantindo igualdade de oportunidades a todas as famílias inscritas.
Superintendência Regional do Incra no Tocantins"