Grupo é suspeito de cobrar juros abusivos em Guaraí e Palmas.
Notícias do Tocantins - A atuação de policiais militares investigados em um esquema de agiotagem no Tocantins era marcada por práticas de intimidação extrema, ameaças constantes e uso de armamento para impor medo às vítimas. De acordo com a Polícia Civil, o grupo utilizava “terror psicológico” e métodos de coação para forçar o pagamento de dívidas com juros abusivos em Guaraí e Palmas.
As informações foram detalhadas após a Operação Nêmesis, deflagrada na última sexta-feira (24), que resultou na prisão preventiva de quatro investigados, incluindo dois PMs. Segundo a 1ª Divisão Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Deic), o grupo atuava de forma sistemática para pressionar vítimas por meio de medo, constrangimento e violência simbólica.
O grupo seria formado pelos policiais militares Sargento Valdimar Rufino de Sousa e Soldado Délcio Lima de Borba Júnior, além do servidor contratado da Secretaria da Cidadania e Justiça (Seciju), Roberto Plathyny Vieira Saraiva, e do suposto agiota Francisco de Assis Gomes de Almeida, apontado como financiador do esquema.
Intimidação armada e ameaças diretas
Um dos episódios mais graves ocorreu em 25 de fevereiro de 2026, quando dois dos investigados foram até o comércio de uma das vítimas, na região sul de Palmas. No local, conforme relatório policial, o soldado Borba Júnior teria atuado como o “braço armado” do grupo.
De acordo com os autos, ele levantou a roupa para exibir a arma na cintura e permaneceu na porta do estabelecimento com as mãos sobre o armamento, enquanto fazia ameaças e insultos. A ação tinha como objetivo intimidar uma idosa de 65 anos e seu filho, um empresário, pressionando-os a quitar a dívida.
As ameaças incluíam ainda a menção a um suposto “grupo de cobrança de fora” que já estaria envolvido no caso - estratégia que, segundo a polícia, elevava o nível de medo e a sensação de risco iminente.
Para os investigadores, esse tipo de abordagem criava um ambiente de “terror psicológico”, capaz de levar as vítimas ao desespero. Em um dos relatos, a idosa teria entrado em pânico diante da situação.
Perseguição e dívida sem fim
As investigações indicam que a cobrança não se limitava a episódios isolados. Ao longo de mais de dois anos, as vítimas - um empresário de 45 anos e sua mãe — teriam sido alvo de perseguições constantes.
Segundo o delegado responsável pelo caso, Wanderson Chaves de Queiroz, a dívida evoluiu para uma “bola de neve”. Mesmo pagando cerca de R$ 4 mil mensais em juros, o valor nunca diminuía. O suposto agiota acumulava mais de R$ 334 mil em cheques vinculados às vítimas.
A pressão foi tão intensa que o empresário chegou a vender um primeiro comércio em Guaraí para tentar quitar os débitos. Ainda assim, as cobranças continuaram, inclusive após a mudança da família para Palmas, onde abriram um novo estabelecimento.
A escalada das ameaças levou ao fechamento do novo negócio e à saída da família da cidade. Segundo a investigação, as vítimas passaram a viver em local incerto por medo de represálias.
Estrutura pública usada para coação
Além do uso de armas e intimidação direta, a Polícia Civil aponta que os investigados utilizavam o prestígio dos cargos públicos para reforçar as cobranças. Em alguns casos, segundo o inquérito, houve simulação de ações típicas de atividade policial para dar aparência de legalidade às abordagens.

Medidas judiciais e investigações
Durante a operação, foram cumpridos mandados de prisão preventiva e ordens de afastamento das funções públicas. A Justiça também determinou o recolhimento das armas dos policiais e autorizou buscas em endereços ligados aos investigados.
Segundo a decisão judicial, há “elementos suficientes de autoria e materialidade”, além do risco de continuidade das práticas criminosas, o que fundamentou as prisões.
Os quatro investigados passaram por audiência de custódia e permanecem presos. A defesa disse que deve se manifestar após ter acesso aos autos.
O que dizem a PM e a Seciju
Em nota, a Polícia Militar informou que acompanhou o cumprimento das decisões judiciais e adotou medidas administrativas, como o afastamento dos policiais e o recolhimento do armamento. A corporação afirmou que mantém “tolerância zero com qualquer tipo de desvio de conduta”.
Já a Secretaria de Estado da Cidadania e Justiça (Seciju) declarou que o servidor investigado era contratado temporário e que já foi formalizado o pedido de extinção do contrato. A pasta destacou que “não compactua com qualquer ato ilícito ou uso indevido da estrutura estatal”.