Chacina de Miracema

Tenente-coronel ajudante de ordens do governador está entre 23 presos por chacina no Tocantins

Entre os investigados estão um tenente-coronel, três majores e um capitão.

Por Redação | AF Notícias 2.055
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08/05/2026 16h15 - Atualizado há 1 mês
Crimes ocorreram após a morte do sargento Anamon Rodrigues de Sousa

Notícias do Tocantins - A prisão preventiva de 23 policiais militares suspeitos de participação na chacina de Miracema do Tocantins expõe uma suposta estrutura organizada dentro da corporação, com envolvimento de oficiais de alta patente em execuções, monitoramento de vítimas e manipulação de provas. A decisão foi proferida por colegiado da 1ª Vara Criminal de Miracema do Tocantins no âmbito das investigações sobre os crimes ocorridos em fevereiro de 2022.

Entre os alvos estão um tenente-coronel, três majores e um capitão da Polícia Militar do Tocantins, apontados como integrantes de um grupo que teria atuado de forma coordenada em ações violentas nos dias seguintes à morte do sargento Anamon Rodrigues de Sousa, durante confronto em um mandiocal. Nas 48 horas seguintes, outras seis pessoas foram assassinadas em circunstâncias atribuídas ao grupo investigado.

Os militares se apresentaram nesta sexta-feira (8) no Quartel do Comando-Geral da PM, em Palmas, após acordo entre o Ministério Público do Tocantins e a corporação. Em seguida, foram encaminhados à Delegacia-Geral da Polícia Civil do Tocantins.

Tenente-coronel ligado ao governo

Entre os presos está o tenente-coronel Douglas Luiz da Silva, que exerce a função de ajudante de ordens do governador Wanderlei Barbosa. Segundo a decisão judicial, ele integra uma equipe que teria utilizado veículo oficial para permanecer por longo período em um ponto estratégico no loteamento Jardim Buriti, onde jovens foram abordados antes das execuções.

A investigação aponta que o veículo permaneceu estacionado durante a madrugada e, posteriormente, seguiu trajeto compatível com o deslocamento das vítimas. Para os investigadores, a omissão de informações sobre essa permanência pode indicar tentativa de ocultar a movimentação.

Após a operação, a Casa Militar informou o afastamento do oficial de todas as funções.

Majores apontados como articuladores

O major Wallas de Sousa Melo aparece nas investigações relacionadas à invasão da delegacia de Miracema, onde pai e filho foram executados dentro da unidade policial. Imagens analisadas mostram o oficial nas proximidades horas antes do ataque e em ponto estratégico pouco antes das mortes.

Segundo a decisão, há indícios de que ele manteve contato com executores, orientou a dispersão do grupo após os crimes e deixou de adotar medidas imediatas.

Já o major Yurg Noleto Coelho é apontado como uma das principais lideranças informais do grupo. Conforme os autos, ele teria coordenado equipes, emitido ordens operacionais e posicionado viaturas para monitoramento de rotas.

A investigação também indica possível participação na retirada de equipamentos de gravação e na eliminação de provas.

O major Wilquer Barbosa de Sousa é citado por suposta atuação na manipulação de registros de viaturas. Há indícios de adulterações em sistemas de monitoramento e alinhamento de versões entre envolvidos.

Capitão teria monitorado deslocamentos

O capitão Gleiston Ribeiro Pereira também está entre os presos. A decisão aponta que ele teria utilizado um veículo que circulou repetidamente entre os locais das abordagens e o loteamento onde ocorreram as execuções.

Dados técnicos indicam que o carro esteve presente em momentos considerados decisivos. O oficial também teria buscado informações sobre a vítima sobrevivente, o que, para os investigadores, demonstra interesse direto no desfecho da ação.

Grupo teria atuado de forma coordenada

Além dos oficiais, outros 18 policiais — entre tenentes, sargentos, cabos e soldados — tiveram a prisão decretada. Segundo a Justiça, o grupo atuava de forma estruturada, com divisão de tarefas como monitoramento, transporte, execução, tortura e destruição de provas.

A decisão destaca que os investigados possuem capacidade técnica e influência institucional suficientes para intimidar testemunhas e comprometer a produção de provas, o que fundamenta as prisões preventivas.

Todos foram afastados das funções públicas, tiveram o porte de armas suspenso e estão proibidos de acessar unidades policiais ou manter contato com testemunhas e familiares das vítimas.

Como ocorreram as mortes

As investigações apontam quatro episódios principais entre os dias 4 e 5 de fevereiro de 2022.

A primeira morte foi a do sargento Anamon Rodrigues de Sousa, durante confronto em uma plantação de mandioca.

Horas depois, Valbiano Marinho da Silva foi executado na porta de casa.

Na madrugada seguinte, Manoel Soares da Silva e Edson Marinho da Silva — pai e irmão de Valbiano — foram mortos dentro da delegacia de Miracema, após a invasão da unidade por homens encapuzados.

No dia seguinte, os corpos de Aprígio Feitosa da Luz, de 24 anos, Gabriel Alves Coelho, de 21, e Pedro Henrique de Sousa Rodrigues, de 18, foram encontrados no loteamento Jardim Buriti. A investigação aponta sequestro, tortura e execução de quatro jovens — com apenas um sobrevivente.

O que dizem as instituições

Em nota, a Polícia Militar do Tocantins informou que acompanha o caso por meio da Corregedoria-Geral e afirmou que “não compactua com quaisquer desvios de conduta praticados por seus integrantes”.

A Secretaria da Segurança Pública do Tocantins informou que a operação cumpriu 23 mandados de prisão preventiva e um afastamento funcional. A pasta também anunciou que deve conceder entrevista coletiva para detalhar as investigações.

A dimensão das prisões e o envolvimento de oficiais de alta patente ampliam o impacto do caso, que levanta questionamentos sobre a atuação de agentes públicos e reforça a gravidade das suspeitas investigadas pelas autoridades.

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