Ex-presidente da Aprosoja, Dari Fronza afirma que essa realidade precisa mudar.
Notícias do Tocantins - Deputados estaduais do Tocantins destinaram R$ 187 milhões em emendas para eventos, shows, turismo e cultura em 2025 e nos primeiros seis meses de 2026. No mesmo período, ações diretamente ligadas ao campo e à infraestrutura rural receberam R$ 20,3 milhões, segundo levantamento realizado no Portal da Transparência da Assembleia Legislativa.
A diferença é de R$ 166,7 milhões. Na comparação, o montante destinado ao segmento de eventos e cultura foi mais de nove vezes superior ao direcionado à produção rural, agricultura familiar, estradas vicinais e outras iniciativas voltadas às comunidades do campo.
Os dados foram apresentados pelo produtor rural Dari Fronza, que atua no Tocantins há 24 anos e criticou as prioridades adotadas pelos parlamentares estaduais. Para ele, os números indicam falta de uma representação mais efetiva do setor produtivo na Assembleia Legislativa.
A consulta considerou emendas empenhadas e pagas nos anos de 2025 e 2026, períodos disponíveis na plataforma. Ao todo, os deputados destinaram R$ 470,3 milhões por meio de emendas parlamentares.
Desse total, R$ 187 milhões foram direcionados a eventos, shows, turismo e cultura, o equivalente a 39,8% de todo o valor identificado no levantamento.
Mais recursos em seis meses
Em 2025, foram encontradas 610 emendas destinadas ao segmento de eventos e shows, somando R$ 90,6 milhões. Já nos primeiros seis meses de 2026, o valor chegou a R$ 96,4 milhões, distribuído em 576 emendas.
Isso significa que, em apenas metade de 2026, os deputados já destinaram ao setor R$ 5,8 milhões a mais do que durante todo o ano anterior, conforme os dados apresentados.
O volume destinado a eventos, shows, turismo e cultura também ficou acima dos recursos direcionados a áreas como saúde, infraestrutura e educação.
Segundo o levantamento, a saúde recebeu R$ 108,4 milhões nos dois anos. Infraestrutura e equipamentos somaram R$ 67,4 milhões, enquanto a educação recebeu R$ 11 milhões.
Os números agrupam emendas de diferentes deputados, municípios, projetos e finalidades. A destinação de recursos para cultura, turismo e eventos é permitida, mas Fronza questiona o peso dessas áreas na distribuição geral do orçamento parlamentar.
Campo recebeu R$ 20,3 milhões
As emendas diretamente relacionadas ao campo produtivo e à infraestrutura rural somaram R$ 20,3 milhões no período analisado.
O levantamento considerou recursos para aquisição de máquinas e implementos agrícolas, apoio à agricultura familiar, perfuração de poços, recuperação de estradas vicinais, piscicultura, apicultura, associações rurais, produtores e colônias de pescadores.
Em 2025, essas ações receberam R$ 5,9 milhões. Nos primeiros seis meses de 2026, o valor aumentou para R$ 14,4 milhões.
Apesar do crescimento, o montante destinado ao campo corresponde a aproximadamente 10,9% do total direcionado a eventos, shows, turismo e cultura.
“O problema é quando o show vira prioridade”
Dari Fronza afirmou não ser contrário ao financiamento de festas, eventos culturais ou ações de turismo, mas defendeu maior equilíbrio na destinação do dinheiro público.
“Não sou contra festa, cultura ou evento. Isso também movimenta a economia. O problema é quando a política pública passa a tratar show como prioridade e deixa em segundo plano aquilo que transforma a vida das pessoas de forma permanente”, afirmou.
Para ele, as emendas deveriam priorizar obras, equipamentos e projetos capazes de produzir resultados duradouros, principalmente nos municípios que dependem da atividade rural.
“Uma emenda bem aplicada pode recuperar uma estrada vicinal, perfurar um poço, comprar máquinas para atender produtores, apoiar a agricultura familiar, fortalecer associações e melhorar a vida de comunidades inteiras. Isso é diferente de gastar milhões em ações que acabam em uma noite”, declarou.
Fronza também argumentou que o campo não se limita às grandes propriedades e envolve uma cadeia econômica que alcança trabalhadores urbanos, comerciantes, transportadores, indústrias e municípios.
“O campo não é só o grande produtor. O campo é o pequeno agricultor, é o assentado, é a família que depende da estrada para escoar a produção, é quem precisa de água, energia, tecnologia, assistência e segurança para trabalhar. Quando o campo vai bem, a cidade também ganha”, destacou.
Representação política
Ex-presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Tocantins e integrante do conselho da Aprosoja Brasil, Fronza afirmou que os valores mostram a necessidade de maior representação das demandas rurais no Legislativo estadual.
“Os números mostram que falta representação do campo na Assembleia Legislativa. E quando falo campo, falo de uma cadeia que começa na propriedade rural e chega à mesa das famílias, ao comércio, à indústria, ao transporte, ao trabalhador da cidade e ao orçamento dos municípios”, disse.
Fronza também defendeu mais transparência e controle social sobre as emendas parlamentares, para que a população possa comparar as áreas escolhidas pelos deputados.
“A população precisa saber para onde vai o dinheiro. O cidadão que paga imposto tem o direito de comparar quanto foi destinado para show e quanto foi destinado para saúde, educação, infraestrutura, produção e apoio a quem trabalha. Esses números precisam ser discutidos com seriedade”, pontuou.
Dari Fronza é pré-candidato nas eleições de 2026. Por isso, as declarações também estão inseridas no contexto da disputa eleitoral e de sua defesa por maior participação política do setor produtivo rural.
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