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A saúde mental do professor isolado - por Ana Letícia, psicóloga e professora da Católica Orione

A escola é um lugar de memórias afetivas.

Por Ana Letícia Guedes Pereira 568
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16/10/2020 10h56 - Atualizado há 1 semana
Professora Ana Letícia

Estamos em outubro, mês no qual se comemora o Dia do Professor, e permanecemos isolados desde março por conta das medidas de proteção ao novo coronavírus.

Leciono psicologia de aprendizagem há um ano e sempre acrescento como material complementar no meu cronograma o filme Alice no País das Maravilhas. Para quem não lembra, Alice é uma jovem que precisa tomar uma decisão que vai determinar o rumo de sua vida. Sem saber o que fazer, ela decide correr atrás de um coelho e entra em outro universo, no qual descobrirá suas próprias potencialidades com a ajuda de uma lagarta. Quando abordo este filme, enfoco sobretudo a relação entre Alice e a lagarta.

Gosto de pensar na relação entre elas para pensar a relação professor e aluno. Professor e aluno estão numa relação que pode ser caracterizada como uma via de mão dupla, ambos se transformam em contato com o outro, como Alice e a lagarta.

Mas por enquanto, vamos guardar esta imagem e voltar ao cenário da pandemia. Conforme os dias foram passando, as preocupações voltaram para os alunos, eram tantas demandas. Demandas que na verdade sempre existiram, mas que não recebiam a devida atenção, alunos sem condições de acessar a internet, alunos em situação de vulnerabilidade social e por aí vai.

Mas a pandemia escancarou também outra realidade: não tem como pensar no bem-estar do aluno e não pensar no bem-estar do professor.

O professor, assim como o aluno, vive o luto pela perda do contato com os colegas e com os alunos. A escola é um lugar de memórias afetivas. Se fecharmos os olhos, poderemos lembrar dos corredores, dos espaços onde convivemos com os outros, dos cantos mais agradáveis e até daqueles que não gostamos.

Em casa, perde-se a dimensão de que o corpo docente é uma equipe, em casa não temos mais o contato presencial com os colegas. Pode até ser que neste contexto existam professores que estejam se sentindo esquecidos, pois o professor acostumado ao contato com outras pessoas agora está isolado. Muitos também se preocupam com as incertezas trazidas pelo momento.

É fundamental criar estratégias para que os professores possam continuar mantendo contato entre si. Quando não encontramos espaços para falar do que sentimos, o corpo encontra outras formas de se manifestar, como exemplo, podem ocorrer insônia, os problemas de pele e a ansiedade.

Os gestores educacionais têm agora a responsabilidade de proporcionar estes espaços de acolhimento e compartilhamento de experiências, mas cada um de nós também pode mandar uma mensagem ou fazer uma chamada de vídeo para um colega. Assim, ele perceberá que o isolamento é apenas físico e não emocional.

O professor tem um papel de liderança diante do aluno, ao mesmo tempo que ele influencia o aluno é também influenciado por ele. Lembram de Alice e a lagarta? Alice estava passando por uma grande transformação e se preparando para a fase adulta da vida. Ao mesmo tempo, a lagarta entrava no casulo e no final do filme transforma-se em uma bela borboleta. Assim também são os alunos e professores, o aluno aprende e se prepara para vida por meio do contato com o professor e o professor também se reinventa em contato com o aluno. E agora a sociedade também está tendo a oportunidade de passar por uma grande reinvenção.

Os professores já eram um grupo que sofria com muitas queixas relacionadas à saúde mental, além de uma categoria desvalorizada socialmente. Com a pandemia, percebemos o quanto a escola é essencial para a sociedade. Muitas consequências negativas surgiram, mas também estamos tendo a oportunidade de rever a forma como lidamos com a educação e com o profissional professor e assim promover a saúde mental destes profissionais e dos alunos. A pandemia vai passar. Eu diria que o que não pode passar é a oportunidade da mudança. E você, o que dirá?

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Ana Letícia Guedes Pereira 

Psicóloga e professora universitária na Faculdade Católica Dom Orione.

Mestra em Psicologia Clínica (2012), na área de Família e Comunidade pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo- PUC-SP, onde estudou sobre a dinâmica relacional entre pais e crianças com TDAH.

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