Região é estratégica para o turismo e está no centro de uma disputa territorial.
Notícias do Tocantins - A chácara atribuída ao governador afastado Wanderlei Barbosa (Republicanos), localizada no distrito de Campo Alegre, em Paranã, no sudeste do Tocantins, foi alvo de buscas da Operação Nêmeses, deflagrada pela Polícia Federal nesta quarta-feira (12). Segundo a investigação, o imóvel - embora registrado em nome de Mauro Henrique da Silva Xavier - teria Wanderlei como proprietário de fato.
O local está situado em uma área de grande potencial turístico, marcada por trilhas, cachoeiras e formações do Complexo Canjica, hoje no centro de uma disputa territorial entre Goiás e Tocantins. A região é alvo de ação no Supremo Tribunal Federal (STF) após o governo goiano contestar a instalação de um portal pelo Tocantins com a frase “O turismo começa aqui”.
A suspeita de ligação de Wanderlei com a chácara surgiu na Operação Fames-19, em setembro de 2025, quando a PF encontrou o imóvel decorado com fotos e pertences pessoais do governador e da primeira-dama afastada, Karynne Sotero. Ambos não se manifestaram sobre a propriedade após a nova fase da investigação.
Região em disputa entre Tocantins e Goiás
A área de Campo Alegre fica próxima dos 12,9 mil hectares cuja posse é reivindicada por Goiás, que afirma que o território pertence ao município de Cavalcante. O governo goiano pediu ao STF a retirada do portal do Tocantins e o reconhecimento da área como goiana.
A região é considerada estratégica para o ecoturismo, devido às trilhas, cânions e cachoeiras que integram uma rota muito procurada por visitantes.
Operação Nêmeses e suspeita de embaraço às investigações
A nova fase da operação cumpriu 24 mandados de busca e apreensão em Palmas e Santa Tereza do Tocantins para apurar suposta tentativa de obstrução da Operação Fames-19, que investiga desvios de recursos destinados à compra de cestas básicas durante a pandemia.
A PF afirma ter identificado que integrantes do núcleo político ligado a Wanderlei teriam sido avisados previamente sobre a operação, permitindo a retirada de documentos, destruição de provas e orientação a testemunhas.
Wanderlei e Karynne estão afastados do governo desde setembro, por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
A assessoria do governador informou que celulares foram apreendidos e que ele não se manifestará até o avanço das apurações.
R$ 52 mil escondidos em armário da suíte
O relatório da PF também destaca que, durante buscas da fase anterior, foram encontrados R$ 52 mil em espécie, em notas de R$ 100, escondidos no fundo de um armário da suíte do casal.
Segundo a decisão, a forma como o dinheiro estava ocultado chamou a atenção, já que o local possuía vigilância 24 horas - e, em condições normais, não haveria motivo para esconder o numerário.
A PF sugere que o valor pode ter sido esquecido ou abandonado às pressas após o suposto vazamento da operação.
Mãe e filha da primeira-dama também foram alvo
Além de Wanderlei, Karynne e os filhos, também foram alvos da operação Joana Darc Sotero Campos, mãe da primeira-dama, e Yasmin Sotero Lustosa, filha de Karynne.
Durante o cumprimento dos mandados, Joana Darc - que tem mais de 75 anos - passou mal e precisou ser hospitalizada, informou a defesa.
Foram apreendidos documentos, veículos e aparelhos eletrônicos em diferentes endereços ligados à família.
A defesa de Karynne afirmou que ela repudia as acusações, classificando-as como infundadas, e disse que está à disposição da Justiça. A defesa de Wanderlei informou que ele recebeu a operação “com serenidade”.
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Quem são os alvos da Operação Nêmeses
A operação mira familiares, aliados políticos, servidores e ex-servidores suspeitos de participar de um esquema de vazamento de informações sigilosas e obstrução das investigações da Fames-19.
Núcleo familiar
Wanderlei Barbosa – governador afastado
Karynne Sotero Campos – primeira-dama afastada
Yhgor Leonardo Castro Leite (Léo Barbosa) – deputado estadual
Rérisson Antônio Castro Leite – superintendente do Sebrae-TO
Familiares da primeira-dama
Joana Darc Sotero Campos – mãe de Karynne
Yasmin Sotero Lustosa – filha de Karynne
Núcleo político e ex-integrantes do governo
Thomas Jefferson Gonçalves Teixeira – ex-secretário de Parcerias e Investimentos
Marcos Martins Camilo – ex-chefe de gabinete de Wanderlei
Wander Araújo Vieira – ex-secretário-chefe da Casa Militar
Ruivaldo Aires Fontoura – ex-presidente do Itertins
Cláudia Lelis (PV) – deputada estadual
Servidores e colaboradores próximos
Alan Rickson Andrade de Araújo – ex-servidor da Tocantins Parcerias
Antoniel Pereira do Nascimento – servidor cedido ao gabinete do governador
Rogério França Borges
Lucas Ferreira Maciel
William Nunes de Souza
Outros investigados
Mauro Henrique da Silva Xavier Rodrigues – proprietário formal da chácara
Irineu Carvalho Amorim
Exonerações no governo após a operação
Em resposta à deflagração da Nêmeses, o governador em exercício Laurez Moreira (PSD) exonerou dois servidores estaduais que foram alvos de mandados de busca:
Alan Rickson Andrade de Araújo, analista de TI e assessor da Secretaria de Participações e Investimentos, suspeito de repassar informações sigilosas ao advogado Thomas Jefferson.
Antoniel Pereira do Nascimento, servidor cedido pela Prefeitura de Palmas, investigado por incompatibilidade patrimonial e possível atuação como “pessoa interposta” em negócios da família Barbosa.
O governo afirmou que as exonerações têm caráter preventivo e que não tolerará condutas que comprometam investigações oficiais.