É Deus ou não?

Por Redação AF
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13/11/2014 09h40 - Atualizado há 2 semanas
<u><span style="font-size:14px;">Pedro Costa Cardoso</span></u><br /> <br /> <span style="font-size:14px;">Para quem n&atilde;o acreditava em Deus em raz&atilde;o da abstra&ccedil;&atilde;o, agora n&atilde;o pode duvidar mais: a justi&ccedil;a brasileira acaba de atestar que Deus existe, e que Ele &eacute; de carne e osso.<br /> <br /> A hist&oacute;ria j&aacute; &eacute; de conhecimento p&uacute;blico. O magistrado Jo&atilde;o Carlos de Souza Correa, em 2011, foi parado numa blitz de tr&acirc;nsito no Rio de Janeiro, por dirigir sem carteira de habilita&ccedil;&atilde;o um carro sem placa de identifica&ccedil;&atilde;o.<br /> At&eacute; a parada do carro se tratava apenas de uma pessoa, durante a abordagem come&ccedil;ou a discuss&atilde;o e a transforma&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que o &ldquo;abordado&rdquo; disse seu cargo: era juiz de direito.<br /> <br /> Por supor que a apresenta&ccedil;&atilde;o fosse um recado na base do &ldquo;sabe com quem est&aacute; falando&rdquo;, a agente rebateu que ele seria juiz, n&atilde;o Deus. Com mais um pouco de boa vontade dos julgados, essa fala poderia ser interpretada dentro daquela m&aacute;xima dos meios jur&iacute;dicos de que todo juiz pensa que &eacute; &ldquo;deus&rdquo; e os desembargadores t&ecirc;m certeza.<br /> A situa&ccedil;&atilde;o de quem trabalha em fiscaliza&ccedil;&atilde;o no Brasil &eacute; complicada por conta dessa cultura tupiniquim de dar tratamento privilegiado a alguns.<br /> <br /> S&atilde;o v&aacute;rios e tradicionais os exemplos de condutas semelhantes de deuses menores. Um dos mais marcantes foram os gritos do pedreiro M&aacute;rio Jos&eacute; Josino, que suplicava um &ldquo;ai dot&ocirc;&rdquo;, a cada borrachada que o soldado Rambo lhe desferia. E esse grito de desespero n&atilde;o tinha nada de ironia e soava como uma defer&ecirc;ncia &agrave;quele que minutos depois se tornaria seu algoz.<br /> <br /> Outros deuses de Bras&iacute;lia sapecaram um &iacute;ndio vivo. Outros mataram um calouro afogado na Universidade de S&atilde;o Paulo, assim os deuses v&atilde;o impondo seu poder, ceifando vidas dos pobres diabos normais.<br /> <br /> Al&eacute;m desses, talvez por neglig&ecirc;ncia ou s&oacute; por acaso, mas com certeza com o aux&iacute;lio da soberba da fama, os ex-jogadores Edmundo e Guilherme, os cantores Alexandre Pires, Renner e tantos outros destru&iacute;ram vidas e fam&iacute;lias. Est&atilde;o por a&iacute; livres, leves e soltos, prontos para atacar a qualquer momento que sintam necessidade de firmarem seus poderes.<br /> <br /> Nessa linha, em 2000, Barbara Gancia escreveu um artigo com o t&iacute;tulo &ldquo;Uberl&acirc;ndia, quem diria, est&aacute; de pires na m&atilde;o&rdquo;, onde relacionou algumas malfeitorias de v&aacute;rios famosos. Nesse ponto a nossa democracia n&atilde;o tem avan&ccedil;ado. Agora, essa agente passa a ser a v&iacute;tima da vez desse comportamento social arcaico de priorizar cargo, fama ou riqueza em detrimento de quem age com corre&ccedil;&atilde;o e dignidade.<br /> <br /> Ainda que as palavras da agente tivesse parecido ironia, ningu&eacute;m pode avan&ccedil;ar a ponto de afirmar e puni-la por isso, j&aacute; que n&atilde;o constam informa&ccedil;&otilde;es jornal&iacute;sticas sobre alguma testemunha confirmando a tal ironia.<br /> <br /> Al&eacute;m disso, not&iacute;cias d&atilde;o conta de epis&oacute;dios similares praticados pelo juiz. H&aacute; relatos de uma confus&atilde;o com um casal de turistas em B&uacute;zios por terem reclamado do barulho de uma festa realizada pelo magistrado. Um policial de tr&acirc;nsito teria sofrido amea&ccedil;as, um funcion&aacute;rio de uma concession&aacute;ria de energia tamb&eacute;m...<br /> <br /> N&atilde;o surpreende que os colegas do juiz punam a agente por ter realizado um trabalho correto e n&atilde;o ter se impressionado com a patente de juiz. Causa estranheza n&atilde;o haver not&iacute;cia sobre alguma medida tomada pela Corregedoria de Justi&ccedil;a do Rio de Janeiro para averiguar os v&aacute;rios epis&oacute;dios envolvendo o magistrado que, com certeza, n&atilde;o &eacute; Deus para a popula&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m para a justi&ccedil;a do Rio de Janeiro &eacute; brasileiro nato, e carioca da gema.&nbsp;<br /> <br /> <u><strong>Pedro Cardoso da Costa</strong></u> &ndash; Interlagos/SP<br /> Bacharel em direito</span>
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