Apesar do climão na unidade, a suspeita continua trabalhando normalmente.
Notícias do Tocantins - Servidores do Hospital Regional de Arraias denunciaram que uma técnica de enfermagem, investigada por estelionato, continua trabalhando normalmente, mesmo após ser acusada de aplicar golpes contra diversos colegas de trabalho, criando um clima de tensão dentro da unidade. Pelo menos 16 profissionais teriam sido prejudicados, e 12 deles já registraram boletins de ocorrência na Polícia Civil.
Apesar das denúncias, a direção do hospital não instaurou nenhuma investigação interna contra a servidora L.T.N. A situação está gerando indignação e revolta entre as vítimas, que se sentem desamparadas.
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Os crimes teriam começado em 2023 e só foram descobertos neste ano, 2025. A técnica teria auxiliado os colegas na abertura de contas no Banco de Brasília (BRB) para o recebimento de passivos devidos aos servidores estaduais.
Uma das vítimas relatou que a suspeita movimentou aproximadamente R$ 28 mil em sua conta, realizando adiantamentos de passivos, férias, 13º salário e empréstimos sem consentimento. As transações ocorreram entre 17 de fevereiro de 2023 e 29 de abril de 2025. Após a descoberta, a investigada chegou a restituir parte do valor.
“No ano passado, duas colegas de trabalho descobriram o golpe, mas ela convenceu as vítimas a manterem silêncio, prometendo pagar. No início deste ano, percebi que estava recebendo muitas ligações do banco e fui verificar em Palmas. Descobri que minha conta estava ativa, com várias movimentações direcionadas ao Pix dela e que o endereço da conta era dela. O banco confirmou que todas as transações foram feitas pelo celular dela”, contou uma das vítimas.
Segundo ela, a técnica era considerada uma colega de confiança: “Ela trabalhava conosco e tinha facilidade para lidar com a criação de contas. Nós precisávamos receber os passivos, então pedimos ajuda a ela. Eu paguei para abrir a conta, e ela se aproveitou. Confiávamos nela.”
Após a descoberta, a vítima tentou alertar os colegas, mas a suspeita ainda tentou convencê-la a não contar, alegando que iria quitar os valores e reconhecendo que sabia que o ato era crime.
Outra vítima, que conhecia a suspeita há 10 anos, relatou: “Ela sempre se mostrou amiga, companheira e prestativa. Ofereceu-se para abrir a conta, usando meus dados, e quando pensei que tudo estava encerrado, descobri que ela havia feito empréstimos e movimentações sem meu consentimento, que ultrapassaram R$ 60 mil. Meu nome ficou negativado, e eu corri risco de processos. Foi um choque, me senti traída e lesada. Ela só quitou a dívida depois de ser pressionada.”
Entre as vítimas, há também uma servidora de 66 anos, que revelou ter sofrido graves consequências emocionais e de saúde após o golpe. “Precisamos fazer alguma coisa, pois não sabemos se ela está sozinha nisso, se tem mais alguém envolvido. Registrei um Boletim de Ocorrência, ela me deu muito prejuízo. Em meu nome, fez cinco empréstimos, renegociação, cartão. Eu nem sei calcular quanto foi tudo isso, pois tem dívida que o banco vendeu para empresa de cobrança e outras que ainda vão começar a cobrar. Ela que foi a causadora de tudo isso, está de boa. Eu estou pagando empréstimo para ela do meu salário. Graças a Deus não tem crime perfeito. Minha saúde está debilitada e todos os meses preciso ir para Goiânia. Dói muito passar por tudo isso”, desabafou.
As servidoras levaram o caso à direção do hospital e fizeram um abaixo-assinado solicitando o afastamento da suspeita, mas a administração se recusou a receber o documento. Nenhum processo administrativo teria sido aberto, e a técnica chegou a pedir licença por alguns meses, retornando em setembro às atividades.
“Quase nada foi feito. Nem processo administrativo foi aberto, mesmo com tantas vítimas. É quase impossível trabalhar ao lado de quem cometeu crimes contra colegas. A direção se negou a agir. A suspeita chegou a alegar problemas psicológicos e tirou licença, mas agora retornou, e todos estamos com medo”, desabafou uma das vítimas.
A técnica de enfermagem ainda deve outros colegas de trabalho.
Indignação das vítimas
“Queremos que todos saibam o que aconteceu. Ela se apropriou de nossos dados, aproveitou-se da confiança e nos causou danos materiais e psicológicos. As pessoas que ela lesou são concursadas. Eu nunca mais fui a mesma, mesmo depois de ela pagar parte do que tomou. Não sei o que mais ela pode estar movimentando além do que descobri. Estou abalada e com medo de conviver com ela. Considerando o número de pessoas prejudicadas e o fato de ela voltar ao trabalho como se nada tivesse acontecido, é um perigo. Ela é fria e dissimulada. Tenho medo dela”, relatou uma das vítimas.
A situação evidencia a ousadia da investigada em se aproveitar de colegas de confiança e a omissão da direção do Hospital Regional de Arraias, que não tomou medidas para proteger os servidores e prevenir novos golpes.
Posição da Secretaria de Saúde
A reportagem procurou a Secretaria Estadual de Saúde para comentar o caso e recebeu a seguinte nota:
"A Secretaria de Estado da Saúde (SES-TO) informa que procedimentos disciplinares da Pasta são conduzidos pela Corregedoria da Saúde, que recebeu da direção do Hospital Regional de Arraias denúncia relacionada ao caso e já autuou processo para abertura de uma Investigação Preliminar Sumária (IPS), a qual embasará as tomadas de medidas legais cabíveis.
A SES-TO destaca que, em consonância com a legislação vigente, as investigações seguem em sigilo, pois no processo administrativo disciplinar apenas o Estado representado pelos servidores da unidade correcional, o Secretário e o servidor acusado são considerados parte no processo. À Pasta cabe a publicidade ao desfecho do processo após a conclusão da apuração, em conformidade com a legislação, resguardando-se o sigilo dos atos enquanto durar a investigação.
A SES-TO pontua que já está construindo um memorando circular que vai em anexo um encarte sobre os riscos de se compartilhar senhas e dados pessoais no ambiente de trabalho e as implicações disciplinares de quem compartilha e de quem usa de forma irregular essas informações.
Por fim, a SES-TO enfatiza que, em casos como o relatado, a orientação é o registro de boletim de ocorrência junto às autoridades policiais e a denúncia na Ouvidoria do SUS, um canal seguro para relatos de queixas e elogios a respeito dos serviços e acolhimentos recebidos nas unidades sob sua gestão. Os contatos são: (63) 3027-4340 e (63) 99932-0531 e e-mails: ouvidoria@saude.to.gov.br e ouvidoria.sus.to@gmail.com. As denúncias podem ser feitas de forma sigilosa e, para todas elas, são abertos processos investigativos e tomadas as medidas legais cabíveis.
Secretaria de Estado da Saúde"