No Tocantins, a política parece ter criado seu próprio e distorcido Ciclo de Krebs.
Keslon Borges | Economista e especialista em Gestão Pública, Fiscal de Obras e Posturas Municipais
No corpo humano, o Ciclo de Krebs é responsável por gerar energia, manter o funcionamento das células e permitir que o organismo respire. É um processo contínuo, complexo e essencial. Porém, quando algo dá errado nesse ciclo, todo o corpo sente. Falta energia, o organismo enfraquece e, aos poucos, perde sua capacidade de funcionar plenamente.
No Tocantins, a política parece ter criado seu próprio e distorcido Ciclo de Krebs. Um ciclo igualmente contínuo, igualmente repetitivo, mas ao contrário do original, não produz energia: consome. E consome muito.
A entrada de gestores: o ciclo que se reinicia, mas não evolui
Assim como o Ciclo de Krebs sempre recomeça, no Tocantins entra gestor, sai gestor, e tudo continua igual. A promessa de “fazer diferente” se transforma sempre no mesmo padrão: vaidade política, sede por poder e obsessão por recursos públicos. O combustível do ciclo não é oxigênio, é ego.
A cada mandato, o que deveria gerar desenvolvimento se transforma em um processo desgastante e exaustivo, que drena a vitalidade do Estado.
Nepotismo, fisiologismo e contratos: as reações tóxicas do sistema
No Ciclo de Krebs real, cada reação tem uma função vital. Na política tocantinense, as reações mais comuns são nocivas:
Nepotismo, que coloca familiares acima do mérito;
Fisiologismo, que transforma a máquina pública em moeda de troca;
Contratos políticos, que substituem servidores de carreira e desvalorizam quem realmente trabalha;
Alocação ineficiente de recursos, que impede investimentos onde realmente há necessidade.
Essas práticas funcionam como metabólitos tóxicos: vão se acumulando e prejudicando o funcionamento de todos os “órgãos” do Estado.
Falta de transparência: quando o oxigênio não chega às células
No metabolismo humano, sem oxigênio, o corpo entra em colapso. Na gestão pública, a falta de transparência cumpre o mesmo papel.
Sem transparência:
a sociedade não consegue fiscalizar,
os recursos desaparecem sem justificativa,
decisões são tomadas às escondidas,
e o ciclo vicioso permanece intocável.
É como se o Tocantins estivesse preso em uma respiração curta, ofegante, incapaz de abastecer sua própria população.
O Estado que não respira: serviços colapsados, população exausta
Hospitais sem estrutura, estradas deterioradas, escolas sucateadas, filas intermináveis. A população sente, na pele, o que é viver em um organismo que já não produz energia suficiente para funcionar.
O cidadão, que deveria ser o “músculo” fortalecido pelo ciclo, recebe apenas fadiga.
Servidores públicos desvalorizados: a perda das mitocôndrias do Estado
Se o Ciclo de Krebs ocorre dentro das mitocôndrias, as usinas de energia do corpo, então os servidores públicos de carreira são as mitocôndrias do Tocantins. São eles que mantêm o Estado vivo, que garantem continuidade, eficiência e técnica.
Mas eles são ignorados.
Em seu lugar, entram contratos temporários que servem como cabos eleitorais. O Estado perde qualidade, perde memória institucional e perde capacidade de produzir energia administrativa.
É como se, a cada eleição, alguém destruísse parte das mitocôndrias e colocasse no lugar estruturas descartáveis e ineficientes.
Sem ruptura, o ciclo nunca muda
Assim como no corpo humano, um ciclo vicioso só é interrompido com intervenção.
No Tocantins, essa intervenção se chama:
consciência política,
fiscalização ativa,
voto responsável,
menos vaidade e mais gestão,
menos acordos e mais planejamento,
menos contratos políticos e mais valorização do servidor de carreira.
O Estado ainda pode respirar.
Ainda pode recuperar sua energia. Ainda pode quebrar esse ciclo deformado que se instalou. Mas para isso, é preciso que o povo, a verdadeira fonte de oxigênio democrático, decida não alimentar mais um sistema que só consome sem devolver nada.
Enquanto o Tocantins repetir o ciclo errado, continuará produzindo o mesmo resultado: cansaço, desperdício e atraso.
Mas, se escolher romper, pode enfim iniciar um novo ciclo, não o da vaidade, mas o do desenvolvimento, da transparência e da vida pública saudável.