Projeto foi lançado na sede da associação do quilombo, localizado em Almas (TO).
Notícias do Tocantins - A herança ancestral segue viva na Comunidade Quilombola Poço Dantas, em Almas, a cerca de 250 km de Palmas, com o lançamento do projeto “Chão de Saberes”, realizado no último sábado (11/04).
A iniciativa busca fortalecer a identidade quilombola por meio da transmissão de conhecimentos tradicionais entre gerações, com destaque para a participação ativa de crianças da comunidade.
A abertura do projeto foi marcada por apresentações culturais realizadas por 14 crianças, que deram vida a manifestações tradicionais como a folia do Divino Espírito Santo e a dança da sussia, em um encontro que reuniu moradores durante reunião ordinária do quilombo.
Vestidas de vermelho e branco, as crianças encenaram no terreiro da comunidade o tradicional ritual da folia. O pequeno alferes conduziu a bandeira vermelha ornada de fitas coloridas, enquanto os demais foliões seguiam em fila, tocando instrumentos como caixa, tambor, pandeiro, viola e violão, além de entoarem cânticos que fazem parte da tradição religiosa e cultural da região.
Em meio à roda formada pela comunidade, o gesto da vênia e a musicalidade dos cânticos reforçaram o caráter simbólico da celebração, que une fé, memória e identidade dos povos negros do sudeste tocantinense.
Além da folia, as crianças também apresentaram a dança da sussia. Com longas saias rodadas, as meninas giraram pelo terreiro acompanhadas dos meninos, que cantavam e dançavam sob orientação dos mais velhos. A apresentação emocionou os moradores, que acompanharam com palmas e vozes, destacando a continuidade viva das tradições.
Projeto nasce com foco em identidade e pertencimento
O projeto “Chão de Saberes” foi idealizado pela pedagoga Maria Lívia Rodrigues Valadares, mestre em Educação e doutoranda em Ciências do Ambiente pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), em parceria com a presidente da associação da comunidade, Miguelanes Crisóstomo.
Segundo a educadora, a proposta é transformar os espaços cotidianos da comunidade em ambientes de aprendizagem e valorização cultural.
“O que queremos é que as crianças vivam a cultura do quilombo no dia a dia, transformando o terreiro e a roça em lugares de aprender. Aqui, o saber não vem apenas de páginas distantes, mas nasce do respeito por quem veio antes e do orgulho de pisar e cuidar deste chão”, afirmou.
Atividades vão além das apresentações culturais
Além das manifestações tradicionais como folia e sussia, o projeto prevê uma série de atividades voltadas ao fortalecimento da identidade quilombola e do letramento racial. Estão previstas rodas de conversa entre crianças e anciãos para partilha de histórias ancestrais, rodas de leitura com literatura infantil negra e quilombola, além de oficinas de construção de instrumentos percussivos, como tambores e caixas.
A iniciativa também alcança crianças quilombolas que vivem tanto na zona rural quanto na área urbana, mantendo o vínculo com a comunidade de origem.
De acordo com a proposta, o objetivo central é fortalecer o sentimento de pertencimento e garantir a preservação da memória coletiva, tendo o território, a oralidade e a ancestralidade como bases do processo educativo.