Tratamento inovador

Jovem com paraplegia é a 1ª a receber polilaminina no Tocantins e reacende esperança

Sindy sofreu um grave acidente de carro que resultou em paraplegia.

Por Redação 779
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03/04/2026 10h18 - Atualizado há 1 semana
Jovem é a 1ª no estado a receber substância experimental em estudo para lesões na medula espinhal

Notícias do Tocantins - O dia 2 de abril de 2026 marcou um momento inédito para a saúde pública do Tocantins. No Hospital Geral de Palmas (HGP), a jovem Sindy Mirela Santos Silva, de 21 anos, tornou-se a primeira paciente do estado a receber a aplicação da polilaminina, substância ainda em fase experimental, estudada por seu potencial na recuperação de lesões na medula espinhal.

A história que levou a esse procedimento começou em 11 de janeiro, quando Sindy sofreu um grave acidente de carro entre Novo Alegre e Combinado, no sudeste do estado. A colisão causou uma lesão na medula que resultou em paraplegia. Após o primeiro atendimento no Hospital Regional de Porto Nacional, ela foi transferida para o HGP, onde passou por cirurgias, incluindo a estabilização da coluna, e iniciou um longo processo de reabilitação.

Foi nesse contexto que surgiu a possibilidade de acesso ao tratamento experimental.

A polilaminina é produzida em laboratório a partir da laminina, proteína natural do corpo humano que atua no desenvolvimento e organização das células, especialmente no sistema nervoso. A versão sintética busca reproduzir essa estrutura de forma estável, com o objetivo de auxiliar na reparação de danos causados por lesões medulares. A pesquisa é conduzida pela cientista Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e ainda está em fase de estudos, com resultados preliminares considerados promissores.

A participação de Sindy foi possível porque ela atendia aos critérios do estudo, especialmente por estar na fase inicial da lesão.

Procedimento inédito no estado

A aplicação foi realizada no setor de hemodinâmica do HGP, com tecnologia de imagem que permite precisão no local da injeção.

O secretário de Estado da Saúde, Carlos Felinto, destacou o caráter pioneiro do procedimento dentro do SUS. “Esse é um momento importante para a saúde pública do Tocantins. Estamos falando de um procedimento pioneiro no estado, realizado dentro de uma unidade do SUS, com toda a estrutura necessária e uma equipe altamente qualificada. Mais do que a tecnologia, o que garante esse tipo de avanço é o cuidado contínuo, integrado e acessível à população. Nosso compromisso é seguir fortalecendo essa rede para que mais tocantinenses tenham acesso a um atendimento de qualidade”, afirmou.

Hoje, com muita alegria, estamos no setor de hemodinâmica do Hospital Geral de Palmas para realizar o primeiro procedimento de administração da polilaminina no Tocantins. Trata-se de uma paciente com traumatismo raquimedular, ainda na fase aguda, e que se enquadra nos critérios do estudo. A equipe está otimista com essa possibilidade e confiante de que o tratamento pode trazer benefícios. O procedimento é feito com auxílio de raio X, que permite direcionar a aplicação exatamente no local da lesão”, frisa o neurorradiologista intervencionista e neurocirurgião do HGP, Vinícius Bessa.

Responsável pela aplicação, o neurocirurgião Luiz Felipe Lobo Ferreira detalhou a técnica utilizada. “A aplicação é feita com a paciente de lado, com sedação leve e sem necessidade de cortes. Utilizamos uma injeção diretamente na coluna, guiada por imagem, para alcançar exatamente a área da lesão na medula”, afirmou.

O médico pesquisador Arthur Luiz Freitas Forte, integrante da equipe da pesquisadora Tatiana Sampaio, explicou o funcionamento da substância. “A polilaminina é derivada de uma proteína natural do corpo, a laminina, que tem papel importante no desenvolvimento do sistema nervoso. O que conseguimos foi transformar essa proteína em uma forma estável, que pode atuar na regeneração dos neurônios lesionados e também proteger as células que ainda estão viáveis. A expectativa não é falar em cura, mas em melhora da qualidade de vida, com possíveis ganhos de movimento, controle corporal e independência”, explicou.

Ele também ressaltou o caráter experimental do tratamento. “Como é um medicamento em estudo, o acesso não é automático. O paciente precisa buscar a equipe responsável, estar ciente dos riscos e atender aos critérios definidos”, completou.

Esperança construída dia após dia

A possibilidade de participar do estudo trouxe novo ânimo à família. Há quase três meses acompanhando a filha em Palmas, a mãe de Sindy, Ledjane Bezerra da Silva, resume o momento vivido. “Estou aqui há quase três meses com a minha filha e muito feliz por ela receber essa medicação. A gente conseguiu contato com a equipe da doutora Tatiana e eu espero que esse tratamento chegue a mais pacientes. Que ninguém desista do sonho de voltar a andar. Eu só tenho gratidão a Deus por tudo que está acontecendo”.

A própria Sindy também destacou o significado do procedimento. “O meu sentimento hoje é de gratidão, primeiramente, a Deus. Ser a primeira do Tocantins eu acredito que vai abrir portas para outras pessoas também terem acesso à polilaminina. Para mim, foi como estar me afogando e passar um navio para me tirar de lá, porque a gente tem muita expectativa”, afirmou.

Reabilitação e trabalho em equipe

Desde a chegada ao hospital, Sindy vem sendo acompanhada por uma equipe multiprofissional. A fisioterapeuta Wellen Cristine relembra o quadro inicial. “Quando a Sindy chegou, o quadro era grave. Ela tinha lesões no tórax, fraturas nas costelas e precisou, primeiro, de um cuidado intenso na parte respiratória. Só depois conseguimos avançar para a parte motora e preparar o corpo dela para a cirurgia. A reabilitação de pacientes com lesão na coluna é feita, muitas vezes, no leito, porque eles não podem sentar no início. É um processo longo, físico e emocional”, explicou.

Segundo a profissional, o acesso ao tratamento experimental também foi resultado de orientação da equipe. “A gente orientou a família sobre essa possibilidade e eles foram atrás. Foi um momento muito marcante quando conseguiram contato com a equipe da pesquisa. Existe muita expectativa, mas também consciência de que o tratamento é apenas uma etapa. A recuperação depende de um trabalho contínuo, principalmente com fisioterapia”, afirmou.

Estrutura que fez a diferença

A realização do procedimento só foi possível graças à estrutura do hospital e ao trabalho integrado das equipes. “O que faz diferença aqui é justamente a equipe multiprofissional. A paciente é acompanhada por fisioterapeuta, psicólogo, enfermeiros, médicos de várias especialidades, nutricionista, fonoaudiólogo. Tudo o que ela precisou durante esses quase três meses foi atendido dentro do hospital. Ela passou por cirurgia, por acompanhamento clínico, por reabilitação. Isso foi fundamental para que ela chegasse apta a receber a polilaminina dentro do prazo necessário”, destacou.

Agora, um novo desafio começa. “Ela é do interior e vai precisar continuar esse acompanhamento fora daqui. Não é simples, mas o que foi feito até aqui mostra o quanto esse suporte completo faz diferença na vida do paciente”, completou a fisioterapeuta.

A história de Sindy ainda está em construção. O procedimento representa um passo importante, mas não encerra o processo. A partir de agora, começam novas etapas de acompanhamento e reabilitação. Entre expectativas e incertezas, o que se consolida é a soma de esforços — de uma paciente que não desistiu, de uma família que buscou alternativas, de profissionais que enxergaram possibilidades e de um sistema público que, quando estruturado, é capaz de abrir caminhos antes impensáveis.

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