Salário de R$ 17 mil: para chegar lá, professor precisa ser gênio, atleta e santo da paciência.
Fernando Maciel Vieira | Professor da Rede Estadual de Ensino
Você já viu aquelas propagandas de loja que gritam em letras garrafais: “TUDO POR ATÉ R$ 1,99!”? Você entra todo animado achando que vai sair com uma sacola cheia de coisa boa… e quando chega lá, o que tem é uma meia furada, uma caneta sem tampa e um chaveiro que toca “Evidências” desafinado. Pois é. Parece até que o novo PCCR dos professores foi inspirado nessa lógica de liquidação enganosa.
“Professor pode chegar a ganhar mais de 17 mil reais!” — diz o comercial político. Só esqueceram de avisar que pra isso você precisa ser uma mistura de Albert Einstein com Madre Teresa de Calcutá, ter 30 anos de sala de aula, duas teses publicadas em inglês, bancar o próprio material didático, e ainda viver 120 anos, porque antes disso, amigo, não dá tempo de bater todos os requisitos.
Quando a gente lê o texto que foi pra Assembleia, percebe que tem mais pegadinha que contrato de operadora de celular. Por exemplo: o tal do “descanso de voz” pra quem tem mais de 20 anos em sala de aula. Parece um avanço, né? Até você ler a parte que diz: “depende de disponibilidade orçamentária”. Ou seja: o governo vai ver se tem dinheiro. Aham, sei. É o famoso “vou ver e te aviso”. Igual quando o crush diz “vamos marcar” e some.
Mas calma que tem mais! O professor precisa fazer todos os cursos da SEDUC, ter mestrado e doutorado, 25 ou 30 anos de contribuição e ainda atingir a idade de 55 (mulheres) ou 60 (homens) pra sonhar com o tal salário dos deuses. É o PCCR ou o Triatlo do Conhecimento? Falta só pedirem pra gente escalar o Jalapão de mochila e giz na mão.
E ainda tem o pequeno detalhe logístico: como é que o professor faz mestrado ou doutorado se o Estado quase nunca libera pra estudar? A gente teria que se desdobrar em três: um corpo dando aula, outro estudando e o terceiro rezando pra não faltar dinheiro pra gasolina. Isso se o mestrado não for em Palmas ou São Paulo, porque aí, meu amigo, o único doutorado que dá pra fazer é o doutorado em sobrevivência.
Ah, e não esqueçamos do clássico: “Professor recebe bem!”. É, dependendo do ângulo, até parece. Cinco mil reais na conta. Agora tenta pagar supermercado, água, luz, internet, transporte e ainda ajudar na decoração da festa da escola, porque nunca tem material. O governo diz que é “capital” ou “custeio”, mas no fim a gente gasta é o “salário mesmo”.
E ainda querem que o professor seja “o melhor do mundo”. Leia, escreva, publique, sorria, eduque, inove, inspire, e — de preferência — não adoeça. Mas quando o professor adoece da voz, da mente ou do bolso, a resposta é sempre: “depende da disponibilidade orçamentária”.
E olha que lindo: todas as outras carreiras do Estado que exigem nível superior entram ganhando mais que o professor. O professor precisa acumular curso, título e paciência pra um dia alcançar o que os outros já recebem no início. É tipo o jogo da vida, mas no modo difícil.
Então, aproveitando o embalo, deixo aqui minhas sugestões sinceras (e um tanto irônicas) aos nossos 24 deputados estaduais, os verdadeiros mágicos que podem transformar a educação — ou pelo menos nossa esperança:
Vale transporte: R$ 300 por mês, para aguentar o preço da gasolina e das reuniões fora do turno.
Vale livro: R$ 300 por mês, para comprar livros e pagar cursos para sua formação.
Vale Formação: R$ 700, para bancar aquele curso obrigatório que o Estado exige mas não paga.
Auxílio Voz: R$ 200, para compensar as cordas vocais arrebentadas depois de gritar “copiem do quadro!” cinquenta vezes.
E claro, aumento da gratificação de regência de R$ 700 para R$ 1000, com parcelas em doze suaves prestações de esperança.
E já que estamos sonhando, por que não copiar o modelo de outros países, onde toda gratificação recebida por mais de 10 anos incorpora ao salário? Mas calma, não precisa copiar tudo!
Agora, antes de me chamarem de exagerado, deixo uma pergunta simples: qual é o preço da educação e da formação do seu filho? Porque, como dizia Darcy Ribeiro, se não construirmos escolas e não valorizarmos professores hoje, amanhã teremos que construir presídios. E, ironicamente, o custo de um preso é bem maior do que o de um aluno.
Mas claro, talvez o governo ache que é mais fácil financiar grades do que ideias. Afinal, ideia boa dá trabalho, e professor bom... sai caro.
E no fim, como diria o caixa do supermercado quando vê a conta do mês: “Quer parcelar ou vai no débito mesmo, professor?”