Artigo de opinião

Opinião | Professor: Como enfrentar a indisciplina? Tem receita ou manual de instrução?

Ou: a busca épica e levemente desesperada por um IKEA da gestão de sala de aula

Por Colaboração do leitor
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05/06/2026 10h32 - Atualizado há 1 mês
A indisciplina escolar é um desses temas que todo mundo tem opinião formada e pouquíssima gente tem solução testada.

Fernando Maciel Vieira | Professor

"A desordem é simplesmente a ordem que não conseguimos ver." — Henri Bergson (que claramente nunca tentou explicar equação de segundo grau com três alunos em pé, dois brigando e um dormindo sobre a carteira)

Seria maravilhoso se existisse. Um manual. Capa dura, índice remissivo, talvez um QR code para vídeos complementares. Manual Completo do Professor Indisciplinado — Digo, do Professor Diante da Indisciplina. Capítulo 1: o aluno que fala sem parar. Capítulo 2: o aluno que não fala nunca mas faz tudo acontecer nos bastidores com a eficiência silenciosa de um produtor de cinema. Capítulo 3: aquele que levanta na hora errada, sempre, com uma precisão cronométrica que seria admirável em qualquer outro contexto.

Mas o manual não existe. E se existisse, o aluno já teria lido antes do professor.

A indisciplina escolar é um desses temas que todo mundo tem opinião formada e pouquíssima gente tem solução testada. O diretor acha que é problema do professor. O professor acha que é problema da família. A família acha que é problema da escola. E o aluno, no centro de toda essa triangulação de responsabilidades, continua jogando borrachinha no ventilador com uma pontaria que francamente merecia ser estudada pela física aplicada.

Foucault, que passou boa parte da vida pensando sobre poder, disciplina e controle — e que escreveu Vigiar e Punir como se estivesse descrevendo algumas escolas brasileiras sem nunca ter entrado nelas — argumentava que a disciplina não é ausência de caos, mas uma forma de organizar corpos no espaço para produzir determinados efeitos. Em outras palavras: a sala de aula disciplinada não é um ambiente natural. É uma construção. E como toda construção, pode desabar se os alicerces forem mal feitos — ou se o pedreiro estiver ganhando salário de estagiário, mas isso é outro artigo.

O que nos leva à pergunta central, honesta e ligeiramente angustiante: o que é, afinal, indisciplina?

Porque aqui mora a primeira armadilha. Durante décadas, a escola confundiu indisciplina com movimento. Com ruído. Com questionamento. Com o aluno que pergunta demais, que não aceita a resposta pronta, que levanta a mão na hora errada ou que — horror dos horrores — discorda. Havia uma versão de escola que chamava de indisciplinado qualquer aluno que não coubesse quieto dentro de um molde que, convenhamos, foi desenhado no século XIX para formar trabalhadores obedientes para a Revolução Industrial. O mundo mudou. O molde, em alguns lugares, continua o mesmo.

Isso não significa que toda agitação é genialidade reprimida. Não é. Às vezes o aluno está mesmo perturbando porque perturbação é divertida e ter quinze anos é, em si, um estado alterado de consciência. Mas o professor que não consegue distinguir entre a indisciplina que nasce do tédio, a que nasce da dor, a que nasce da necessidade de atenção e a que nasce da pura e simples testagem de limites — esse professor vai tratar tudo com a mesma resposta e vai se surpreender quando a resposta não funcionar.

Émile Durkheim, sociólogo que levava a escola muito mais a sério do que a escola levava a si mesma, dizia que "a disciplina é a condição essencial de toda vida em comum." Verdade absoluta. Só que Durkheim estava falando de disciplina como valor moral coletivo, como pacto social, como aquilo que nos permite conviver sem nos destruir mutuamente. Não estava falando de silêncio compulsório às oito da manhã como prova de respeito institucional. A diferença entre os dois é enorme. E ignorar essa diferença é o que faz muita política disciplinar escolar parecer mais com controle do que com educação.

O professor que enfrenta indisciplina hoje está num campo de forças extraordinariamente complexo. De um lado, alunos que chegam à escola carregando histórias que a escola não pediu e não sabe muito bem o que fazer: violência doméstica, fome, ansiedade diagnosticada tarde demais, luto, solidão digital. Do outro, um sistema que exige resultados mensuráveis, notas, IDEB, ranking — como se fosse possível medir a aprendizagem de um ser humano em formação com a mesma régua que se mede o comprimento de uma mesa. No meio de tudo isso, o professor. De pé. Com o plano de aula na mão e a sensação crescente de que hoje não vai sair como planejado.

E de fato não vai. Porque sala de aula não é laboratório controlado. É, para usar uma metáfora mais honesta, um ecossistema vivo — e ecossistema vivo tem imprevistos, tem desequilíbrios, tem espécies que não deveriam estar no mesmo habitat mas estão, convivendo, se adaptando, às vezes evoluindo juntas e às vezes apenas sobrevivendo ao mesmo período de cinquenta minutos.

A neurociência, que chegou à educação com todo o entusiasmo de quem descobriu que o cérebro existe e funciona, nos diz algo que os bons professores já sabiam intuitivamente: o cérebro não aprende sob ameaça. Quando o ambiente é percebido como hostil ou imprevisível, o sistema límbico assume o comando e o córtex pré-frontal — responsável pelo raciocínio, pelo planejamento, pela aprendizagem complexa — sai de cena. Em termos mais diretos: o aluno que tem medo não aprende. O aluno que se sente humilhado não aprende. O aluno que não confia no espaço não aprende. Ele pode ficar quieto. Pode copiar. Pode até tirar nota. Mas não aprende — e essa distinção é o coração de tudo.

Isso coloca o professor numa posição incômoda mas necessária: a gestão da indisciplina começa antes da indisciplina. Começa na relação, no clima da sala, na forma como o professor entra, fala, olha, responde ao erro, lida com o conflito. Não porque o professor seja o responsável por tudo — essa narrativa do professor-herói-salvador é tão exaustiva quanto injusta. Mas porque o professor é a única variável naquele ambiente que tem consciência, formação e, em tese, ferramentas para intervir.

Rudolf Dreikurs, psiquiatra austríaco que dedicou boa parte da carreira a entender o comportamento de crianças e adolescentes, propôs uma ideia que parece simples mas derruba muita certeza pedagógica: todo comportamento inadequado tem um objetivo. Atenção, poder, vingança ou evitação do fracasso — uma dessas quatro molas está por baixo de quase toda indisciplina que o professor enfrenta. O aluno que grita quer atenção. O que desafia quer poder. O que sabota quer se proteger de se expor ao risco de tentar e falhar. Quando o professor responde ao comportamento sem entender o objetivo, está tratando o sintoma e deixando a causa intacta. É como tapar o buraco do teto com fita adesiva durante a chuva: resolve por uns três minutos e depois o problema volta, maior.

Isso não quer dizer que o professor vire terapeuta. Não é isso. Significa que a pergunta "por que esse aluno age assim?" precisa anteceder a pergunta "o que eu faço com esse aluno?" — porque a segunda sem a primeira produz respostas genéricas para problemas específicos, e respostas genéricas para problemas específicos são o tipo de coisa que aparece bem no relatório da coordenação e não muda nada na segunda-feira seguinte.

E aqui, finalmente, chegamos ao ponto mais honesto deste artigo: não existe receita. Existe conhecimento. Existe reflexão. Existe repertório — de abordagens, de leituras, de experiências partilhadas com outros professores que sobreviveram a turmas parecidas e guardaram o que funcionou. Mas receita, não. Porque receita pressupõe ingredientes padronizados, e sala de aula é o lugar mais antipadronizado que existe — trinta seres humanos completamente diferentes, numa fase da vida que é, por definição, uma zona de instabilidade, sob a orientação de um outro ser humano que também tem dias ruins, também tem limites, também está, à sua maneira, tentando descobrir o que fazer enquanto faz.

O que existe, e vale mais do que qualquer manual, é o professor que pensa sobre a própria prática. Que no final do dia, em vez de concluir apenas que a turma é impossível, pergunta o que poderia ter feito diferente. Que busca formação não como obrigação burocrática mas como ferramenta real. Que conversa com os colegas sem vergonha de dizer que está com dificuldade. Que, sobretudo, não confunde autoridade com autoritarismo — porque autoridade se constrói com consistência, presença e respeito mútuo, enquanto autoritarismo se sustenta só pelo tempo suficiente para o aluno descobrir que pode ignorá-lo.

Paulo Freire insistia que "ensinar exige humildade." Não a humildade passiva de quem aceita qualquer coisa, mas a humildade ativa de quem reconhece que não sabe tudo, que o outro tem algo a dizer, que o processo é de dois lados e que a sala de aula é um lugar de encontro — não de transmissão unilateral de conteúdo para corpos que foram obrigados a aparecer.

O aluno indisciplinado, na maioria das vezes, não é o inimigo do professor. É o sinal mais visível de que algo no encontro não está funcionando. Pode ser um sinal da família, da sociedade, da escola, do sistema — quase sempre é de tudo isso junto. Mas é também, e isso o professor precisa ter coragem de considerar, um convite para olhar diferente. Para tentar outra entrada. Para perguntar, sem drama mas com seriedade: o que esse aluno está tentando me dizer com esse comportamento que ainda não aprendeu a dizer com palavras?

Não tem manual. Mas tem essa pergunta. E um professor que a faz todos os dias já está muito à frente de qualquer receita.

— Escrito com o devido respeito por quem entra em sala sem saber exatamente o que vai encontrar e entra assim mesmo, porque é nisso que consiste, no fundo, a profissão mais imprevisível e mais necessária do mundo.

Referências: Foucault, M. Vigiar e Punir (1975) — Durkheim, É. Educação e Sociologia (1922) — Dreikurs, R. Discipline Without Tears (1972) — Freire, P. Pedagogia da Autonomia (1996) — Vygotsky, L. A Formação Social da Mente (1984) — Bergson, H. A Evolução Criadora (1907) — OCDE, TALIS 2018 Results: Teachers and School Leaders as Lifelong Learners.

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