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Opinião | Zé Ninguém: a trilha sonora do Brasil onde o crime compensa e ainda é aplaudido

Keslon Borges é economista e especialista em Gestão Pública.

Por Colaboração do leitor
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08/08/2025 08h55 - Atualizado há 11 meses
Keslon Borges é economista e especialista em Gestão Pública

Keslon Borges | Artigo de opinião

“Ei, Zé Ninguém, o que você quer ser quando crescer?”

Se a pergunta da música do Biquini Cavadão fosse feita hoje, a resposta mais honesta

seria:

“Quero ser corrupto. Mas com bons advogados.”

Sim, porque no Brasil do século XXI, a meritocracia virou piada, a ética é lenda urbana, e o sonho do pobre é virar assessor do cunhado do vereador. Afinal, quem trabalha certinho vira Zé Ninguém. E quem rouba com estratégia, vira Excelência.

A corrupção na política: o clássico reinventado

A corrupção política brasileira é como novela da Globo: muda os personagens, mas a história é sempre a mesma. Prefeitos que nomeiam a esposa e filhos como secretários.

Deputados que criam ONG pra girar verba de emenda, senadores que descobrem dinheiro no cofre do banheiro — e todos, invariavelmente, injustiçados, perseguidos, vítimas do sistema.

Aliás, que sistema! Um emaranhado de compadrios, laranjas, contratos de fachada e discursos em tom messiânico. A corrupção não é um acidente. É o plano de governo.

A corrupção no Judiciário: onde a toga pesa só de um lado

Enquanto isso, no templo sagrado da justiça, as decisões brotam como orquídeas em estufa — delicadas, caras e seletivas.

Político com foro privilegiado vira cliente VIP da impunidade. Réus poderosos são tratados com mais respeito do que professores da rede pública.

E os juízes que tentam mexer onde não devem? São acusados de ativismo.

No fim, a balança da justiça virou gangorra: sobe pra elite, desce pro povo.

Os problemas sociais: um país que encolheu para caber no bolso dos esquemas

Enquanto o alto escalão das Gestões Públicas brincam de Robin Hood ao contrário, o povo vive com:

- escola sem merenda,

- hospital sem médico,

- rua sem asfalto,

- e a polícia sem viatura.

Mas a propaganda institucional é bonita: drone, hino, idoso enrugado sorrindo, criança com bandeirinha na mão. O resto, que se vire com PIX solidário e campanha de arrecadação no Instagram.

E o Zé Ninguém? Trabalha, paga imposto, pega ônibus lotado e ainda vota sorrindo.

A música que virou retrato falado

Ninguém é mais o mesmo nesse espelho quebrado;, canta o Biquini.

E é verdade: o Brasil que se vê no espelho está todo trincado — rachado entre os que mandam e os que obedecem, entre os que desviam e os que esperam, entre os que se calam e os que já desistiram de gritar.

Zé Ninguém virou todo mundo.

Aquele que trabalha e não é ouvido.

Aquele que denuncia e é ignorado.

Aquele que vota com esperança e recebe em troca um outdoor dizendo “obrigado pela confiança”.

A ironia final: quem manda ainda pergunta “do que vocês reclamam?”

Talvez o maior deboche seja esse: os donos do poder fingem surpresa diante da insatisfação popular. Como se não soubessem que o povo está cansado de ser massa de manobra, figurante de comício, escada para dinastia política.

O Brasil oficial continua celebrando os mesmos nomes, as mesmas alianças, os mesmos esquemas — enquanto o Zé Ninguém continua comendo o pão que o sistema amassou.

Mas cuidado.

Zé Ninguém já entendeu o jogo.

E uma hora, ele levanta da arquibancada, desce pra arena… e não pede mais selfie com político.

Ele pede justiça.

E dessa vez, sem toga parcial, sem laranja, sem rachadinha.

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Keslon Borges | Economista e Especialista em Gestão Pública.

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