As apostas online ativam áreas do cérebro associadas ao prazer e recompensa.
O vício em apostas online, também conhecido como bets, tem impactado a vida de milhares de brasileiros, levando não apenas a perdas financeiras significativas, mas também a danos emocionais e sociais profundos. O relato de Thiago Silva*, de 32 anos, ilustra a devastação que esse hábito pode causar. Após perder cerca de R$ 500 mil em apostas, Thiago reconheceu a gravidade de sua dependência e iniciou uma jornada de recuperação, destacando como as bets podem ser tão destrutivas quanto drogas ilícitas.
As apostas online ativam áreas do cérebro associadas ao prazer e recompensa. Segundo o neurocientista Bruno Rezende, da UFMG, esse processo ocorre devido à liberação de dopamina, neurotransmissor responsável pela sensação de prazer. Essa ativação é semelhante à experimentada no consumo de substâncias como álcool e drogas ilícitas, criando um ciclo de “recompensa rápida”.
“Observamos que, ao apostar, o cérebro libera altos níveis de dopamina, semelhante ao que acontece em atividades como o consumo de álcool ou substâncias ilícitas”, explica Rezende. Essa repetição constante faz com que o apostador busque estímulos cada vez mais intensos, aumentando o risco de dependência.
Além disso, essa compulsão afeta áreas do cérebro responsáveis pelo controle de impulsos, prejudicando o discernimento e levando a decisões financeiras e emocionais arriscadas. Jovens são particularmente vulneráveis, já que seus cérebros em desenvolvimento não possuem a mesma capacidade de autocontrole que adultos, potencializando o impacto negativo.
O vício em apostas online não prejudica apenas o indivíduo, mas também afeta suas relações interpessoais e sua estabilidade social. Thiago relatou que, em meio ao auge de seu vício, retirou R$ 70 mil dos caixas da empresa familiar, o que causou uma quebra de confiança com sua família. “Minhas irmãs já me disseram que eu deveria me matar de tanta tristeza que eu dava pro meu pai”, relembra.
Essa dependência compromete não só a renda pessoal, mas também as prioridades financeiras. De acordo com a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), 63% dos apostadores no Brasil afirmaram ter comprometido sua renda com bets, deixando de adquirir itens essenciais como alimentos, produtos de higiene e vestuário.
A superação do vício em bets começa com o reconhecimento do problema e a busca por ajuda. Thiago encontrou apoio na comunidade Jogadores Anônimos (JA), um grupo de suporte para pessoas com dependência em jogos de azar. O compartilhamento de experiências em comum é uma das principais estratégias do JA, ajudando os participantes a enxergar novas perspectivas e a reconstruir suas vidas.
Além disso, o tratamento psiquiátrico desempenha um papel essencial na recuperação. Por meio de acompanhamento profissional, é possível abordar as alterações cerebrais causadas pela dependência e desenvolver estratégias para lidar com os gatilhos emocionais que levam às apostas.
Thiago hoje reflete sobre as mudanças positivas em sua vida após seis meses de abstinência. “Minha família toda sabe que eu venho no JA e veem a diferença. Eu era uma pessoa extremamente arrogante, raivosa. Hoje eles confiam em mim”, afirma.
O crescimento das apostas online no Brasil tem se tornado uma questão de saúde pública. Em resposta, o governo federal instituiu um Grupo de Trabalho Interministerial de Saúde Mental, Prevenção e Redução de Danos do Jogo Problemático. O objetivo é desenvolver estratégias para prevenir, mitigar danos e oferecer suporte a indivíduos e comunidades afetadas.
O reconhecimento desse problema como uma questão de saúde pública é um passo importante para conscientizar a população sobre os riscos das bets. A educação sobre os perigos da dependência e a promoção de recursos de apoio são fundamentais para reduzir o impacto devastador das apostas na sociedade brasileira.
*Nome fictício