Keslon Borges é economista e especialista em Gestão Pública.
Keslon Borges | Artigo de opinião
Em 1987, um rapaz franzino de voz forte e raiva elegante escreveu o que virou um hino da indignação nacional: “Que país é esse?”. Renato Russo não fazia análise técnica, nem discurso partidário — ele apenas dizia o óbvio que muitos fingiam não ver: o Brasil era (e ainda é) um escândalo institucionalizado com trilha sonora própria.
Passaram-se 38 anos, mas a letra segue atual como extrato bancário de político em sigilo fiscal.
“Nas favelas, no Senado...”
Ele já sabia. Sabia que a pobreza seria eterna e que os poderosos continuariam brincando de Estado com dinheiro público como se fosse ficha de pôquer.
De Collor a PixBet: o carnaval da corrupção brasileira
Desde que Renato lançou a música, o país colecionou escândalos como quem coleciona figurinhas da Copa:
Anos 90: Collor, PC Farias, os “caçadores de marajás” que adoravam um cofre.
Anos 2000: Mensalão, cuecas recheadas de dinheiro, aliados fiéis comprados com verba pública e um STF que teve que abrir a cartilha da vergonha.
Anos 2010: Petrolão, Lava Jato, delações premiadas que viraram best-seller e políticos que choravam em rede nacional dizendo que “erraram tentando acertar”.
Anos 2020: “Orçamento secreto”, rachadinhas gourmetizadas, empresários virando donos de franquias e loteamentos, e influenciadores pagos com verba de emenda.
Tudo isso com uma plateia que, entre indignada e entorpecida, segue votando nos mesmos sobrenomes — às vezes até nos herdeiros. Filho de corrupto é esperança de gestão moderna, dizem os iluminados.
A arte de aperfeiçoar o roubo
Se antes se escondia dinheiro em mala, hoje se registra empresa no nome da sogra e se finge ser empresário do agro.
Se antes a propina era entregue em envelope, hoje é incluída no preço da licitação.
A corrupção no Brasil não sumiu. Ela apenas fez MBA, passou no TCU e contratou agência de marketing.
Renato não imaginava que os ratos que ele denunciava iriam aprender a usar terno slim, andar de SUV blindada e publicar stories com a legenda: “Gratidão a Deus por mais essa conquista”.
Ainda existe alguma esperança?
Sim. Porque nem tudo está perdido. Ainda há gente que investiga, denuncia, resiste. Ainda há jovens que ouvem Legião Urbana e se perguntam, não só “que país é esse?”, mas “o que podemos fazer com ele?”.
A pergunta ainda dói, mas ao menos ela não foi esquecida.
Final irônico, porém real
38 anos depois, “Que país é esse?” continua sendo um grito sufocado que ecoa entre um escândalo e outro. A resposta?
É o país que normaliza o roubo, idolatra o corrupto e desconfia de quem tenta consertar.
Mas também é o país de quem ainda acredita, resiste e acende uma vela onde só restou escuridão.
Talvez Renato Russo tenha feito mais que uma música.
Talvez ele tenha deixado um alerta eterno, disfarçado de rock.
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Keslon Borges | Economista e Especialista em Gestão Pública.