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Kátia Abreu afirma que já tentou ajudar Temer e que PMDB ‘perdeu o fio da meada’

Agnaldo Araujo -
Foto: Roque de Sá/Agência Senado
Senadora Kátia Abreu

A senadora tocantinense Kátia Abreu (PMDB) diz não ter pressa para definir o seu futuro. Alvo de um processo de expulsão do partido, ela pretende esperar novos fatos na Justiça antes de decidir se deixa a legenda para a qual migrou em 2013. “Por que eu vou me apressar? Esse governo passa, daqui a pouco ele vai, e o PMDB fica“, disse.

A afirmação foi em entrevista ao Estadão Conteúdo. Ela não esconde a intenção de se candidatar ao governo do Tocantins em 2018 e afirmou que levará em conta o cenário eleitoral antes de decidir a sua futura legenda caso o casamento com o PMDB chegue ao fim. Além do presidente Michel Temer, a senadora tabém é opositora ao governador Marcelo Miranda.

Em seu gabinete, no qual ainda ostenta na parede um retrato da presidente cassada Dilma Rousseff, ela contou que até tentou ajudar o presidente Michel Temer no início do governo, mas que após a delação da JBS, que implica diretamente o correligionário, desistiu. “Tentei ajudar inúmeras vezes na relação com o Renan (Calheiros, ex-líder do PMDB no Senado e crítico a Temer), a discutir as reformas no Congresso, mas depois da delação da JBS as coisas se complicaram muito.

Um desfecho para o caso pode estar próximo. Na quarta-feira passada, a Comissão de Ética do PMDB encaminhou à Executiva um pedido para suspender a parlamentar das atividades partidárias.

VEJA A ENTREVISTA

A sua decisão de sair do PMDB já está consolidada?

Não. Eu vou aguardar um pouco mais porque há muita coisa para acontecer nos próximos 30 ou 60 dias no que diz respeito à Justiça. Vamos ver o que vai acontecer tanto no PMDB nacional, no PMDB local.

A senhora se refere a delações, como a do corretor Lúcio Funaro?

Sim, Funaro por exemplo. Mas ainda há uma segunda denúncia e talvez uma terceira (contra o presidente Michel Temer). Por que eu vou me apressar? Esse governo passa, daqui a pouco ele vai, e o PMDB fica. O PMDB não é um mau partido, são alguns membros que estão o destruindo.

Já sabe para aonde vai caso saia?

Eu tenho sim algumas preferências. Recebi convites de vários partidos. Estou fazendo uma análise para saber o que é melhor para o que pretendo e a composição no meu Estado, mas vou esperar um pouco, não tenho urgência para esta mudança. Aliás, todos que me consultam sobre mudar de partido eu recomendo esperar setembro.

Qual a sua expectativa em relação ao processo de expulsão?

O PMDB perdeu totalmente o fio da meada, o partido das Diretas Já, do Ulysses Guimarães, um partido democrático, tolerante, como está no estatuto. De repente, não pode ter menos de 270 votos na Câmara por causa das questões atuais. Então o compromisso do partido é com essas pessoas, não pode perder o voto de nenhuma. Está radicalizando, tendo comportamentos ditatoriais para defender um projeto, um governo, e não defender o País. Agora, querer me calar, impor votos, isso eu não aceito. Dizer na argumentação (do pedido de expulsão) que estou destruindo o partido é piada. Não tenho envolvimento em nenhuma operação de busca e apreensão, de cadeia, de tornozeleira. Não sou eu que está envergonhando o partido.

O que achou da decisão da comissão de ética do PMDB de encaminhar um pedido de suspensão contra a senhora?

Não fui expulsa e nem afastada ainda. O artigo 44 do código de ética é claro. No caso de afastamento cautelar, só a Executiva pode decidir. Eles pegaram o pedido do diretório do Tocantins e encaminharam. Agora, o processo de expulsão continua tramitando na comissão. Então não teve decisão nenhuma, zero.

E por que o partido decidiu analisar a sua suspensão e a do Requião não? 

É porque o meu pedido é do diretório de Tocantins e o do Requião é fabricado por aqui. Não há nada contra ele lá pelo Paraná. Em Tocantins eu sou adversária do diretório local. Vou me candidatar ao governo e estou incomodando. E eu bato em cima. É uma guerra local. O que acontece: eles não podem perder nenhum voto e, para isso, vão até as últimas consequências. Eles querem dar exemplo. Então é mais fácil punir a mim, que fiquei contra o impeachment. Além de ter aquela coisa que eu não gosto de falar, mas é por ser mulher, né?

Teme sofrer algum tipo de represália em suas atividades no Senado, como ser retirada de alguma comissão da qual participa?

Absolutamente, não. Nada se vota. Não tem matérias importantes para o País sendo votadas. O Senado, infelizmente, está parado.

O que achou da decisão do partido de mudar de nome, em uma tentativa de se remodelar?

Remodelar com o que? Artificialmente? Mudar o nome uma hora dessa não tem sentido. Agora, é piada pronta me cassar por falta de ética. O ‘P’ que precisa sair não é o que está no nome do partido. E o Geddel (Vieria Lima), e o (Eduardo) Cunha, e o (Sérgio) Cabral, e Henrique Alves?

Como vê a condução da política econômica no governo Michel Temer, que precisou rever a previsão de rombo no Orçamento?

Acho que neste caso é menos pelos gastos e muito mais por causa da receita, que caiu demais. E era algo óbvio, por causa da frustração de receitas em casos como do Refis, da repatriação, não há possibilidade de dar certo. O (ex-ministro da Fazenda no governo Dilma Rousseff) Joaquim Levy propôs três coisas: tirar desoneração, criar algum tipo de imposto e cortar gastos. Não tem muita mágica. Mas ninguém quis e nada disso foi feito. As medidas não foram aprovadas porque tinha um impeachment no meio, era a regra do quanto pior, melhor. O plano não é muito diferente de um presidente para o outro.

Qual é a parcela de culpa do Congresso neste rombo nas contas públicas? As MPs do Refis e da reoneração, por exemplo, foram bastante flexibilizadas…

Mas ele (Temer) não é o maestro e o doutorado e PhD em Câmara, enquanto ela (Dilma) não era a toda inábil, que não sabia negociar com o Congresso? Ele se habilitou sendo um expert nesse quesito. Eu não espero esse resultado dele, tem que dar conta do recado. É culpa do Congresso ou ele que está cedendo demais?

Mas o Congresso está dificultando?

Em ano pré-eleitoral, tudo é difícil em qualquer Congresso do mundo com medidas impopulares. Não podem criminalizar os parlamentares por isso, e não estou aqui contratada para defender ninguém, mas eu compreendo a delicadeza do momento. Estamos numa hiper crise, com hiper desemprego, o endividamento das famílias no auge. As pessoas já estão feridas de morte. Ai vem essas reformas impopulares. Talvez se fosse em um momento mais brando seria mais fácil. Agora, acho difícil conseguir aprovar.

A senhora acha que a reforma da Previdência é necessária?

A necessidade de aprovar a idade mínima sim, as pessoas estão vivendo mais. Tributar mais os servidores públicos federais será inevitável.

Seu voto então será favorável quando a proposta chegar no Senado?

Não, a reforma previdenciária é ampla demais. Preciso antes ver como ela vai chegar. E se ela vier da Câmara, por exemplo, com cem artigos a mais? Não posso responder sem antes ver o texto. Não dá para se comprometer. Mas acho que estamos num momento de crise e uma atualização das normas da Previdência — prefiro falar em atualização do que em reforma – deve ser importante, talvez no momento inadequado. Mas porque não aprovar um pouco de desonerações? É mais fácil enfrentar o anonimato do que a empresa A, B ou C.

Mesmo com baixos índices de popularidade, o governo mantém o apoio do mercado financeiro e do setor empresarial. Ao que atribui este apoio?

O mercado é muito sensível. Acabamos de sair de um impeachment que durou praticamente de dois anos e isso agravou muito a situação econômica brasileira. O mercado é muito acomodado, não gosta de mudanças bruscas, apesar de saber que este governo acabou e não vai conseguir fazer grandes coisas. E você vê que o próprio mercado está constrangido diante de tantas denúncias. No início surgiu até uma esperança. Eu, sinceramente, fui contra o impeachment, mas depois que se concretizou não fiquei torcendo para dar errado, não. Não trabalho dessa forma. Tentei ajudar inúmeras vezes na relação com o Renan (Calheiros, ex-líder do PMDB no Senado e crítico a Temer), a discutir as reformas no Congresso, mas depois da delação da JBS as coisas se complicaram muito.

E a criação de um fundo eleitoral de R$ 3,6 bilhões para bancar as campanhas. A senhora é a favor? De onde sairiam os recursos?

Sou contra o financiamento privado, não temos condição de continuar na política com o financiamento privado. Eu não me candidataria. Sou a favor do financiamento público. Agora, um financiamento público com uma fonte desconhecida, nova, com o caos que o País está vivendo, eu acho irresponsável. E acho desonesto intelectualmente quem diz: “Quem não quiser que não pega”. Não é assim. Você primeiro monta o modelo, depois vai ver quanto custo. Aqui não, primeiro arrumaram R$ 3,6 bilhões, mas para qual modelo? Baseada em 2014? Que foi essa confusão toda, uma eleição distorcida, cheia de irregularidades? É como a gente tentasse dizer assim para a população: ‘Continuem a ter ódio pela política e pelos políticos’. No momento as pessoas estão morrendo nos hospitais, olha a situação da segurança pública. Agora, se me perguntarem se quero o dinheiro, claro que eu quero, eu preciso de dinheiro para fazer campanha. Mas é preciso de um mínimo de dignidade, um mínimo de correção. Por que não pega, por exemplo, dinheiro de multas a partidos, do Fundo Partidário, dinheiro da televisão para poder financiar um modelo? Vamos priorizar redes sociais, vamos priorizar o que? O debate está desqualificado. Começou pelo valor para depois descobrir o modelo. É como se eu mandasse fazer uma roupa sem saber qual será a festa que você vai. E se for de dia? E ser for na praia? Como você faz a roupa sem saber qual é a festa? Eu pretendo ser candidata ao governo de Tocantins, mas como vai ser isso? Não sei nem como vai ser. Só sei que vai ter um dinheiro.

Como vê a possibilidade de volta do financiamento de empresas? Não dá mais. Depois disso aí. Eu voto contra. Quem defende um negócio desse não pode estar falando sério.

E em relação ao distritão?

O distritão enfraquece o partido. Sou a favor do distrital, pois ele empodera o eleitor. O distritão empodera o político mandatário. É isso que a gente quer? Eu procuro fazer a leitura das pessoas, estou andando pelo meu Estado. Dizem que será mais barato pois terá menos candidatos, mas quem disse que terá menos candidatos? Eu prefiro o modelo atual e o distrital depois. E se implementar distritão, nunca mais sai dele. Porque quem vota é quem está com mandato. Se passar, vai ser uma tragédia.

A senhora já foi do DEM, passou pelo PSD e está no PMDB. Agora estuda convites de partidos antagônicos, como PSDB e PDT, entre outros. Em algum momento mudou de lado?

(risos) Eu adoro essa pergunta. Esse negócio de direita e esquerda é muito curioso. Parece que algumas pessoas que são da direita gostam de ser insensíveis. Ter sensibilidade é sinal de estar indo para a esquerda. Parece desenhado em uma caixinha. E quem é da esquerda não fala em lucro e não fala em direito a propriedade. Criou-se rótulos e eu não penso assim. Acho que isso tudo acaba prejudicando a sua relação, a convivência, o trabalho. Não posso ser sensível, me preocupar com as pessoas e, ao mesmo tempo, acreditar no livre mercado e no direito de propriedade, como eu acredito? Acreditar em tudo isso não significa que eu não tenha coração que eu não esteja sensível às dificuldades das pessoas. As pessoas do meu Estado são pobres ou extremamente pobres. Não quero um crescimento econômico sem desenvolvimento social. Meu primeiro projeto que apresentei para a Dilma foi de aumentar a classe média rural. Ela ficou com os olhos estatelados. Estamos criando uma agricultura sem agricultores. A concentração no campo é violentíssima. Cerca de 6% do campo deve produzir 80% do total. Nós temos uma classe média que não passa de 9% e o restante na classe D e E. É isso que queremos? É claro que não deu tempo de implementar o projeto e o Ministério do Desenvolvimento Agrário ficou contra.

A senhora nunca teve uma boa relação com a JBS. Já sabia das irregularidades que hoje eles admitem? 

Agora parece que todo mundo sabe, né? Eu sempre falei. Em primeiro lugar, o Temer por várias vezes pediu a minha complacência e que eu baixasse a guarda contra a JBS. Mas não foi só ele, várias pessoas vieram me pedir. A única que não me pediu foi a Dilma, que até tinha o direito de me pedir, porque eles financiaram a campanha. Mas ela nunca me fez uma recomendação. A primeira coisa que fiz quando assumi o Ministério da Agricultura, sabendo da animosidade que eles tinham comigo, politicamente, convidei um dos irmãos, o Wesley, e disse a ele com muita serenidade: ‘Aqui, no ministério, quero lhe garantir que ninguém será tratado mal. Não haverá privilégios e nem perseguições’. E foi a única vez que nos encontramos. O meu problema com eles é que, quando estava na CNA, percebemos o desejo de ascendência sobre o Ministério da Agricultura. Daí trabalhamos duro para não haver essa ascendência.

A Procuradoria-Geral da República cogitou há alguns meses propor a suspensão processual a investigados por caixa 2 na Lava Jato, nos inquéritos em que não há crime associado. É o caso da senhora. Aceitaria um acordo?

Não. Não admito esse crime em hipótese alguma. Eu quero ver as provas. Também tenho os documentos para apresentar quando for chamada a ser interrogada. Eu quero ir lá, prestar meu depoimento. Quero ver esse processo arquivado por falta de provas.

A senhora tratou sobre o assunto com a futura procuradora-geral, Raquel Dodge, quando ela esteve aqui no Senado para ser sabatinada?

Não toquei no assunto. Aliás, eu ia votar contra ela após os boatos de que iria enterrar a Lava Jato. Eu não quero que enterre. Gosto da Lava Jato. A operação tem dificuldades, tem injustiças, mas depois corrige, como vai corrigir o meu. Mas mudei de voto após ouvir um amigo que tenho na procuradoria, que é radical, xiita. Ele me falou: ‘Não Kátia, ela é ótima’. Tanto que quando ela foi na casa do Michel Temer, eu liguei para ele: ‘Calma, ela não tem experiência política. Não tem malícia’. Eu declarei na comissão que pensei em não votar nela, mas votaria porque esse meu amigo me convenceu.

E qual é a sua avaliação sobre o trabalho do atual procurador?

Eu gosto dele. Não acho ele incompetente.

A senhora acha que há conotação política no trabalho da PGR?

Quem não age politicamente? Mas não acho que ele demonstrou uma perseguição política para um partido. Acho que ali foi tudo, né? Não sou advogada e nem juristas para entender os meandros das injustiças, do que pode ou não pode. Sou como o eleitor comum: ‘Está prendendo gente, está descobrindo as coisas, então não está tão ruim, né?’ Não tenho afinidade com ele, mas não tenho preconceito de achar que ele foi político e perseguiu pessoas. O dia que ele me colocou na Lava Jato eu fiquei brava, claro. Mas não posso pensar só em mim. Eu sei o que fiz, sei que sou inocente. Uma hora vai sair.

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