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Médico conta experiências marcantes das 80h de greve de fome, mesmo sem receber salários atrasados

Redação AF - | - 896 views
Foto: Divulgação
Médico conta o que apreendeu em 80 horas de greve de fome

Após 80 horas de greve de fome, que terminou com uma internação hospitalar à contragosto, na tarde do último sábado (03/09), o médico anestesista do Hospital Regional de Araguaína, Roberto Corrêa Ribeiro de Oliveira, não recebeu os 12 meses de salário atrasado do Governo do Estado, mas tem muita história para contar e um aprendizado que marcará para sempre sua vida.

Roberto iniciou a greve de fome no último dia 31 de agosto, em protesto contra o descaso do governo do Estado, que não paga os profissionais há cerca de 12 meses. A dívida acumulada com a Cooperativa que representa a categoria soma R$ 13 milhões.

Veja a carta do médico:

“O que aprendi em 80h de greve de fome.

Quando tomei a decisão de fazer greve de fome para reivindicar o recebimento de 12 meses de salários atrasados criei uma grande crise familiar.

Todos se desesperaram, pois temiam pela minha segurança e pelo comprometimento de minha saúde.

Confesso que medida tão extrema, só foi utilizada porque a indignação de estar impossibilitado de honrar os seus compromissos familiares, estando trabalhando diariamente e com 12 meses de salários atrasados, sem perspectivas de recebimento, foi maior que o medo de me expor publicamente.

Quantos brasileiros não passam por situação semelhante no país?

Estamos com mais de 12 milhões de desempregados. Todos tiveram a sua dignidade roubada por cidadãos inescrupulosos que só se preocupam em predar a nação.

Às vezes olho na TV as cenas degradantes de idosos sendo conduzidos pela PF, e me pergunto: Será que esses senhores não se envergonham de passarem por esse tipo de situação?

Os representantes públicos precisam saber que ao roubarem o suado dinheiro arrecadado de nossos impostos, roubam também a nossa dignidade.

O dinheiro usado para comprar os carros luxuosos, as mansões, os iates, os helicópteros e jatinhos, é o mesmo dinheiro que seria utilizado para reformar e construir hospitais, comprar medicamentos, construir escolas, melhorar a segurança pública, investir em infraestrutura.

Como podem fechar os olhos para tantas mazelas?

Ao ficar 4 dias e 8h, em greve de fome, em frente ao pronto socorro do Hospital Regional de Araguaína (TO), sentado em uma cadeira, dormindo ao ar livre e utilizando o mesmo banheiro público que os pacientes, pude aprender algumas boas e importantes lições.

Aprendi que dói ficar sentado por horas e horas em uma cadeira sem poder esticar o corpo para dormir (no primeiro dia dormi em uma cadeira comum). Os ponteiros do relógio se arrastam l e n t a m e n t e.

Que o grito doido de uma mãe que acabou de recebeu a notícia, que seu filho havia falecido, após dar entrada no pronto socorro, penetra no coração da gente como uma lâmina gelada, dilacerando-o. Dói n’alma.

Também não pude deixar de observar, que todas as noites chegavam moradores de rua, que silenciosamente preparavam seu cantinho para dormir. Arrumavam “dignamente” o seu leito de descanso: abriam sua sacolinha de plástico, tiravam não sei o quê de dentro dela, pegavam um pedaço de papelão, ajeitavam e dormiam.

Não se importaram de dividir comigo a sua moradia, afinal de contas, há muito já tinham desistido de lutar e de se considerarem cidadãos brasileiros.

Uma noite, vi meu vizinho se remexendo e gemendo. Senti que algo o incomodava. Fiquei com pena, queria ajudá-lo, pois achei que estivesse com fome.

Infelizmente, por estar me privando da alimentação por vontade própria, não tinha comigo nenhum alimento para oferecer-lhe.

Peguei um copo de água de coco, abri e dei a ele. Após beber, deitou-se, disse que estava com fome e dormiu.

Meu coração partiu.

A noite é longa. Viaturas dos mais variados tipos, chegavam na porta do PS, sem parar e a todo o instante, trazendo os mais diferentes tipos de pacientes: SAMU, BOMBEIROS, PM.

Todos trabalhando arduamente enquanto a maioria dormia em suas residências. Esses trabalhadores deveriam ser tratados com mais respeito e consideração pelo governo e pela sociedade, já que arriscam as suas vidas para proteger as nossas.

Outra cena que me sensibilizou, foi quando fui ao banheiro à noite. Ao passar pela sala de espera, percebi uns 3 velhinhos assistindo TV que estava presa no suporte da parede.

Lembrei-me de meus avós, quando no domingo, assistiam seu programa predileto, Silvio Santos.

Descobri que eles perambulavam pela rua durante o dia e à noite utilizavam a recepção do PS como sala de TV.

Muitas foram as lições.

Pessoas simples me levavam coco natural semi-descascados, botões de rosas, orações, suas netas para tirarem fotos, um abraço amigo, um aperto de mão calejada, uma palavra de consolo e esperança.

Foram muitas emoções nestes poucos dias de jejum e protesto.

Não poderia deixar de relatar os vários relatos de dificuldades semelhantes à minha de outras categorias profissionais (professores, servidores públicos, etc).

Muitas pessoas se diziam impressionadas e chocadas pois não acreditavam que um médico pudesse passar por dificuldades financeiras.

Alguns me disseram que viram pessoas ricas e pobres, de mais idade, se compadecendo com o meu sofrimento (algumas até choraram).

Foi um momento importante para mostrar para toda a sociedade que médico é um trabalhador como qualquer outro. O médico também sofre quando tem dificuldades para sustentar com dignidade a sua família.

A riqueza deste ambiente me dava força e ao mesmo tempo me distraia.

A fome com o passar dos dias deixou de ser um problema. O estômago só doeu nos 2 primeiros dias.

O apoio dos amigos, dos estudantes de medicina e de minha família, foi fundamental para minimizar qualquer tipo de sofrimento.

Não me senti um segundo sequer só.

Várias lições pude tirar desta experiência marcante, que me acompanharão para o resto de minha vida. São elas:
● Nada no mundo vale mais que uma verdadeira amizade, nada;
● A solidariedade vem de onde menos se espera;
● Devemos lutar incansavelmente pelos nossos sonhos e pelos nossos ideais;
● A fome dói, passa, e te digere lentamente;
● Todos, independentemente da condição social, merecem ser tratados com carinho, respeito e consideração;
● A força que os outros acham que você tem, não existiria sem os elementos anteriormente mencionados, logo, todos somos capazes;
● O povo merece ser tratado com mais respeito pelo governo.

Gostaria que todas as pessoas que tiveram contado comigo nestes últimos dias, pudessem ler este relato (pessoas comuns e representantes políticos).

Assim fazendo, talvez pudessem compreender melhor o meu posicionamento e a minha postura.

Quando não cedi às dificuldades, às pressões ou às propostas a mim oferecidas, não o fiz por radicalismo ou por soberba.

Assim agi, porque algo muito mais importante do que o “vil metal” estava em jogo: a minha dignidade estava sendo colocada à prova.

Obrigado à todos por terem feito parte do mais importante capítulo de minha vida.

Roberto Corrêa Ribeiro de Oliveira – médico”

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