Papo com especialista!

Entrevista: Especialista em gestão pública comenta questões políticas e econômicas de Araguaína

Segundo ele, é difícil de provar a corrupção, mas os sinais são claros.

Por Conteúdo AF Notícias 770
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11/03/2024 15h31 - Atualizado há 4 meses
Keslon Borges é economista e especialista em gestão pública

Notícias do Tocantins - Keslon Borges é economista, especialista em gestão pública, investidor profissional e fiscal de Obras e Posturas de Araguaína. Em entrevista ao AF Notícias, o profissional comentou sobre o cenário econômico da cidade, abordando questões políticas e a relação da sociedade com o poder público. Confira:

Na sua visão, qual é o grande diferencial da cidade de Araguaína?

Araguaína é a segunda maior cidade em número populacional do Estado do Tocantins, e tem como slogan e apelido "Capital econômica do estado" e/ou "Capital do boi gordo". Esse apelido por si só demonstra a capacidade dos empreendedores locais de fazerem com que a cidade gere emprego e renda, e faça jus à fama de capital econômica do Estado. Isso acontece independentemente de qualquer gestão que já tenha passado por aqui, pois mesmo em tempos difíceis, a classe empresarial, que envolve comércio, indústria, serviços e agronegócio, nunca deixou de acreditar e investir na nossa região. Sabem do grande potencial do nosso mercado consumidor, visto que Araguaína está localizada num ponto estratégico, estando aproximadamente 100 km das fronteiras do Pará e Maranhão, onde diariamente o povo dessa região consome todo tipo de produto e serviço aqui da cidade. Na minha visão, o diferencial está em quem gera emprego e renda, que são os empreendedores.

O que você acha que mais melhorou na cidade?

Com certeza, a infraestrutura. Porque uma cidade para atrair investidores precisa entregar, pelo menos, o básico, como ruas e avenidas pavimentadas e com manutenção em dia. Então, neste ponto, evoluímos bem. Claro, acrescente-se a isso a disponibilidade de rede de esgoto em andamento e a iluminação pública em toda a cidade, pois o primeiro melhora a qualidade de vida da população e o segundo contribui para a sensação de segurança.

Como você enxerga o ambiente de negócios em Araguaína?

Quando se fala em ambiente de negócios favorável, estamos nos referindo a processos que têm por objetivo desburocratizar, simplificar e digitalizar a relação dos empreendedores em geral com a Prefeitura e, com isso, reduzir exigências, prazos e custos para quem desenvolve um negócio, gerando mais empregos e fazendo com que mais renda circule na cidade. Vejo que já demos alguns passos, mas estamos engatinhando nesse processo de melhoria do ambiente de negócios. Por exemplo, a gente vê que a Prefeitura busca se modernizar criando sistemas ou aplicativos para atendimento de alguns serviços. Mas, enxergo dois erros cruciais: primeiro erro, não convidar uma amostra de contribuintes para discutir a implantação desses serviços e emitirem suas opiniões sobre o melhor formato, por exemplo - contadores e corretores de imóveis que usam com mais frequência os serviços públicos. E o outro está na inexperiência dos executores/formuladores, pois quando se trata de tecnologia, não se pode simplesmente pensar em algo, criar e lançar. É necessário passar por um processo de maturação, o que a gente chama de “versão beta” – que é um estágio ainda em desenvolvimento para fazer correções de bugs e reparar problemas antes do lançamento da versão final. Obedecendo essas etapas, reduzem-se as chances de erros, constrangimentos e criação de filas imensas de retificação de serviços que foram mal conduzidos.

E as políticas públicas?

Essa área talvez seja a que precisa de mais olhares da população, pois impacta diretamente no desenvolvimento da região e melhoria da qualidade de vida da população. Mas, vejo de um modo geral não só Araguaína, mas todos os 139 municípios, incluindo o Governo do Estado, gastam muito recurso público e entregam poucos resultados práticos. Sabe de onde eu tiro essa conclusão? Ninguém trabalha com metas, com exceção das metas que já são impostas legalmente na área de educação e previdência – a gente não encontra um departamento organizado de estatísticas em nenhuma secretaria. Não há um controle de dados para definir onde alocar os recursos de forma eficiente. Portanto, onde não se tem controle da informação e metas estabelecidas, não tem gerência. Cria-se um ambiente de gestão intuitiva.

Há rixa entre a Gestão e Servidores Efetivos?

Nunca enxerguei o posicionamento dos servidores públicos como rixa. É uma tese que entra gestão e sai gestão e todas as vezes é implantada na cabeça do gestor. Mas, é natural que o servidor lute por melhoria salarial, lute por melhores condições de trabalho e reconhecimento. Aliás, quem sai perdendo sempre é a gestão, pois deixa de aproveitar muitos talentos que temos disponíveis, com expertise em todas as áreas e já preparados para exercer qualquer função estratégica dentro da municipalidade. E, o melhor de tudo, sai bem mais barato para a população, visto que eles já são remunerados pela atividade de carreira e ganhariam apenas a gratificação para exercer atividade de confiança. Já vi no passado a contratação de consultorias para melhorar a gestão das secretarias e que teve poucos resultados, na verdade foi uma atuação quase nula, em virtude do grande contingente de contratos que tínhamos na época. Esses servidores contratados sem concurso público passaram por esses treinamentos, mas como são meramente indicações políticas, dormem no cargo e talvez não amanheçam. Então, todo o esforço e custos de treinamento foram inócuos.

Na sua opinião, a Velha Política ainda comanda o cenário político?

Eu não chamaria de velha ou nova política, pois todos que entram têm de seguir princípios básicos da administração pública: legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Mas, para chegar ao poder ou permanecer nele, eu vejo que muitos atropelam esses princípios. Cometem atos de improbidade administrativa, para ser leve no comentário, pois o certo é falar atos de corrupção mesmo. Mas, todos sabemos que quando se fala em corrupção, é difícil mensurar e provar, apenas os indícios ficam pairando no ar. Na minha opinião, a corrupção se inicia no loteamento de cargos públicos com parentes de todos os níveis. Hoje os órgãos fiscalizadores são mais ativos, então, o artifício a ser usado é nepotismo cruzado: "nomeia meu parente aí que eu nomeio seu parente cá". Onde está o interesse público nisso? Por que filhos, esposas e esposos, sobrinhos, sogros e sogras, cunhados têm de ocupar cargos estratégicos em todas as gestões? Será se esses parentes de vereadores, prefeitos, deputados estaduais, senadores, governadores são tão bons assim para ocupar cargos com altos salários? Até quando iremos achar isso normal? Estamos alimentando há tempos “caçadores de renda”.

Mas, tenho fé que gradativamente, pessoas de bem, pessoas bem-sucedidas que não necessitam de salários do poder público, empreendedores comecem a se interessar cada vez mais por política e doem seu tempo em prol do bem comum e que políticos profissionais saiam aos poucos de cena.

Você comentou que corrupção é difícil provar, mas quais seriam os prováveis indícios?

Aumento substancial de patrimônio e ostentação de padrão de vida. Até algumas décadas atrás, o meio mais utilizado era a compra de gado e fazendas, distribuidoras de gás e postos de combustíveis. Hoje, a gente enxerga esses indícios em criação de loteamentos, compra de franquias ou até mesmo investimentos em criptomoedas. A conta é muito básica, por mais que um político seja bem remunerado, um salário líquido girando em torno de 20 a 25 mil reais – esse valor é totalmente desproporcional ao padrão de vida que eles usufruem. Esse reflexo a gente vê nos gastos de campanha como compra de votos em cada eleição. Novas lideranças sendo criadas apenas por força do poder econômico, sendo que até então nunca tiveram serviços comprovados em nenhuma área.

Na visão de servidor, o que acha que poderia ser aperfeiçoado?

É difícil fazer algum juízo nessa área, pois muitos dos que tomam decisões – que são os agentes políticos, estão na verdade defendendo a permanência dos seus empregos. Muito das vezes são parciais, agem sem a transparência necessária que o cargo requer e sofrem interferências políticas de todas as ordens. É o preço que se paga por não serem de carreira. Reflexo disso é o aumento dos assédios morais e sexuais que a mídia já vem exibindo há algum tempo. Se setores e comissões como ouvidoria e áreas que cuidam de Processos Administrativos Disciplinares (PAD) funcionassem sem viés político, muito provável que teríamos ambiente de trabalho menos tóxico.

Como a sociedade pode contribuir para que Araguaína se transforme numa cidade cada vez melhor?

Esse movimento já vem acontecendo ao longo dos anos. Muitos grupos empresariais, grupos de classe e entidades sem fins lucrativos já fazem um excelente trabalho voltado para pessoas em condições de vulnerabilidade, nas áreas de educação, esporte, empreendedorismo, social, causas humanitárias – fazendo a diferença na vida de muitas pessoas.

Já dentro da municipalidade, tem um projeto em andamento encabeçado por servidores de carreira, via sindicato dos fiscais, cujo objetivo é aprimorar a gestão pública, auxiliando o gestor atual e os próximos gestores subsequentes na identificação de gargalos que atrapalham o desenvolvimento ou retardam as ações. O projeto é a Escola de Gestão Pública Inovadora a qual irá treinar e capacitar continuamente servidores para solucionar problemas da comunidade e propor soluções, além do claro, a parte educacional nas áreas ambientais, saúde pública e posturas. É um grande passo que será realizado e executado por quem realmente entende de todas as áreas do município.

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