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Em entrevista, Silvânia Bessa conta detalhes do esquema e diz que prefeito e secretários não sabiam

Redação AF - |
Foto: Divulgação
Silvânia Bessa concedeu entrevista à imprensa nesta sexta-feira (29)

A assistente social Silvânia Bessa, pivô de todo o suposto esquema de venda ilegal de moradias do Programa “Minha Casa Minha Vida”, abriu a boca e contou detalhes de como funcionava a fraude. A ex-servidora da Secretaria de Habitação de Araguaína (TO), exonerada no mês de março, falou à imprensa nesta sexta-feira (29).

Silvania estava visivelmente abalada e chorou em vários momentos da entrevista. A assistente social afirmou que a fraude começou em novembro do ano passado, mas o prefeito Ronaldo Dimas não tinha conhecimento da comercialização das casas, tampouco o ex-secretário Geraldo Silva e o atual José Da Guia.

A ex-servidora confirmou que arrecadava o dinheiro, mas disse que repassava à Coordenadora das Áreas de Risco, Nívia Marinho. O esquema ainda teria a participação de um servidor administrativo, identificado como Jorge, e do responsável pelo cadastro habitacional, Ricardo Leite. Segundo Silvânia, apenas esses servidores tinham conhecimento da comercialização de casas.

Segundo ela, o esquema envolvida somente as casas destinadas a pessoas que moravam em áreas de risco, 200 no total, mas apenas 36 foram vendidas, porém não foram entregues.

Confira a entrevista completa:

Desabafo…

Silvânia Bessa – Não quero que ninguém sinta pena. Seu eu tiver que pagar, eu quero pagar, mas pela justiça e não pela mão do homem. O erro é saber e dar continuidade nesse erro.

Quando começou o esquema?

Silvânia Bessa – A primeira situação começou em novembro do ano passado, deixando bem claro que o secretário sabia o mínimo do mínimo. Não vamos apontar dedo e condenar dizendo que o secretário foi conivente. Não foi! Não se pode generalizar uma situação e expor nomes de pessoas que não tiveram participação.

O primeiro caso foi de uma pessoa que precisava adquirir a casa, mas não tinha sido sorteada, porém tinha disponibilidade de uma certa quantia [em dinheiro]. E, por essa pessoa ser amiga de uma das pessoas [envolvidas] foi ajudada, pagando e tendo seu nome aprovado pelo SITAH.

A ideia de vender as casas surgiu dentro da própria secretaria de Habitação. Foi feita uma “facilitação” para se adquirir a casa.

Quantia de dinheiro arrecadada…

Silvânia Bessa – O valor estipulado era de R$ 5 mil. Eu arrecadava esse dinheiro e passava para os meus superiores [coordenadores]. Os secretários não tinham conhecimento da comercialização. Os pagamentos eram em espécie.

Não sei a quantia precisa [arrecadada], mas foi bastante satisfatório. Tinha pessoas que pagavam menos que R$ 5 mil. A relação dos nomes das pessoas que foram “vítimas” está toda com a Polícia Federal.

O dinheiro ficava com a coordenadora e não era rateado entre os participantes. Era uma hipótese para contribuir na campanha da Nívea, pois ela tinha ideias de comprar cadeiras, caixa de som, para ir guardando para a campanha eleitoral. Eu fazia isso porque precisava do meu emprego, precisava dos R$ 2.400,00 [salário]. Se eu denunciasse, como sou pequena, eu seria exonerada de qualquer jeito.

O prefeito Ronaldo Dimas sabia da comercialização?

Silvânia Bessa – Em novembro, procuramos atingir a meta de 200 unidades habitacionais para suprir a demanda das áreas de riscos e foi pedida autorização ao Ronaldo Dimas para incluir algumas pessoas para ocupar as vagas que faltavam. A sugestão partiu da Coordenadora Nívia, e foi autorizado pelo prefeito.

Em todo o meu depoimento [à Polícia Federal] vocês sabem que foi citado o nome do prefeito, mas em momento algum fala que Ronaldo Dimas comercializou casas. Não foi dito isso! O prefeito indicou duas pessoas, mas não para a venda. Elas se enquadravam nos critérios do programa pela vulnerabilidade e renda [critérios do Ministério das Cidades], mas não por morar em área de risco.  

Eu citei o nome da Dona Nil [primeira-dama] não por ela fazer parte do esquema, mas porque foram indicados alguns nomes [mesmo não pertencendo a área de risco] e por acreditar que estávamos ajudando também quem realmente precisava.

Ameaças sofridas…

Silvânia Bessa – Toda a minha família foi penalizada por essa situação. Não saímos mais de casa, meu filho parou de fazer faculdade para não me deixar sozinha. Eu gritei socorro por muita gente, para talvez atenuar essa situação, pois não era justo essas pessoas passarem por isso.

Fui na polícia dia 19 e não foi oferecida ainda proteção nem para mim, e nem para minha família. Recebi ameaças pelo meu dispositivo [celular].

Em algum momento, algumas dessas pessoas que foram enganadas se sentiram lesadas, e por terem me repassado o dinheiro, acharam um culpado. E alguém tirar de onde não tem, é muito difícil porque é um sonho que foi desfeito.

Eu estou em risco, minha família está! Não é fácil olhar nos olhos de um filho e ver desespero. Qualquer pessoa que encosta do meu lado eu já acho que vou levar um tiro na cabeça. Não é uma situação fácil.

Contato com vereadores…

Silvânia Bessa – Eu não tinha acesso ao cadastro para mover pessoas, para ver se alguém estava apto ou não. Eu nunca tive contato com vereador algum sobre informações de lista. Eu nunca tive contato algum com Ronaldo mandando alguém para comprar uma casa.

Venda das casas…

Silvânia Bessa – Os contratos foram feitos. A pessoa passava o dinheiro para mim. Faziam o dossiê e os nomes eram enviados para a Caixa. As 36 pessoas foram aprovadas pelo SITAH, sendo aptas a ganhar a casa do Lago Azul I. E assim foi seguindo. Uma facilidade dessa, a notícia corre. Quem enviava os nomes para a Caixa era o coordenador de Cadastro Habitacional, Ricardo.

As pessoas não chegaram a ocupar a casa, e nem a receber. Por isso desencadeou tudo isso. Perderam o dinheiro e perderam a casa.

Devolução de dinheiro aos compradores…

Silvânia Bessa – Chegou a devolver um cheque e cerca de R$ 4 mil para duas pessoas, porque o boato se espalhou pela cidade e essa pessoa não queria perder.

Não sei o destino do dinheiro arrecadado e nem onde foi aplicado. Eu repassava para os meus coordenadores.

A Nívia era cargo de confiança do Ronaldo e a função dela era trabalhar para ter essa quantidade de pessoas destinadas a área de risco, a fim de ocupar as 200 unidades.

Vereador Geraldo Silva – ex-secretário – sabia?

Silvânia Bessa – Eu acho que o Geraldo não sabia, porque ele é uma das pessoas mais dignas que eu conheço. Não preciso fazer politicagem, tampouco pedir nada para ele. O Geraldo nem deveria estar sendo citado nisso.

As vezes as coisas acontecem na tua cara e você não sabe o que está acontecendo, porque você dá confiança e credibilidade para quem está do seu lado.

José da Guia – atual secretário – sabia?

Silvânia Bessa – Ele soube [depois] das indicações e fez um corte nas pessoas indicadas. Eu creio que ele não tinha consciência sobre a venda das casas.

Todas as pessoas que pagaram receberam as casas?

Silvânia Bessa – De forma alguma! Os dossiês chegaram a ser protocolados em Palmas, porém quando ocorreu a denúncia foi solicitada a devolução desses dossiês, os quais se encontram com o Dr. Danilo.

Conversa com o vereador Batista Capixaba…

Silvânia Bessa – No ápice do meu desespero, eu bati nas portas de muitas pessoas. Quando eu bati na porta do Dr. Paulo Roberto não foi para fazer política. Eu fui buscar a orientação de um advogado. E falei para ele o que estava acontecendo. Não tenho condição de pagar um advogado.

No dia, coincidentemente encontrei com o vereador Capixaba e falei que estava acontecendo uma situação muito grave e estou com medo. Ele falou: Fique calma!

Eu não fiz aliança nenhuma com ele, mas chegou ao conhecimento da mídia que eu tinha feito uma aliança com o Batista Capixaba.

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