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Idosa vive de favores depois de contrair dívidas que superam sua renda em 380%

Agnaldo Araujo - | - 525 views
Foto: Ilustrativa
A idosa contraiu dívidas em decorrência de doenças de seus familiares

Em decorrência de problemas de saúde de seus familiares, uma idosa contraiu dívidas que ultrapassam 380% de sua renda. Desesperada, ela procurou a Defensoria Pública do Estado do Tocantins, que ingressou com uma ação na justiça e obteve decisão favorável determinando a renegociação dos débitos. A decisão é do juízo da 3ª Vara Cível de Gurupi, sul do Estado.

A idosa ficou endividada em cinco bancos e a justiça limitou o valor dos descontos ao percentual de 30% dos seus rendimentos. A decisão também determina a revisão contratual das taxas e juros cobrados.

“Acolhendo nossos argumentos, a sentença deferiu o pedido e determinou que cada um dos bancos cobre apenas 8% da dívida mensal, sem calcular juros, renegociando-se a dívida e postergando para o futuro até a quitação total. A título de boa-fé, desde o ajuizamento, pedimos – e foi deferido – que fosse determinado ao Igeprev e ao INSS a não inclusão de qualquer outro tipo de dívida nas folhas de pagamento da idosa a fim de que não fosse criado um novo quadro de superendividamento com a liberação desta margem”, explicou a defensora pública que acompanha o caso, Lara Gomides.

De acordo com a defensora, a idosa procurou a DPE em Gurupi em março deste ano e apresentou quadro elevado de endividamento devido às dívidas contraídas com as instituições bancárias, com descontos efetuados em folha de pagamentos (consignados) e por débitos de prestações de outros empréstimos diretamente na conta bancária onde seus rendimentos são depositados.

Segundo a idosa, os empréstimos foram contraídos devido a problemas de saúde na família. O montante das dívidas representa mais de 380% da renda líquida mensal da mulher, o que, segundo ela, a coloca em condição de viver de favores de conhecidos e parentes, pois não sobra nenhum valor para seu
uso e sobrevivência.

“Esse valor dizia respeito exclusivamente a dívidas com bancos e instituições financeiras, não constavam ali os valores atinentes à sobrevivência e subsistência da idosa, tais como água, energia, telefone, alimentação, saúde”, explicou a defensora pública.

Superendividamento

O superendividamento é um fenômeno social que reflete a impossibilidade do devedor, pessoa física, leigo e de boa fé, de pagar suas dívidas de consumo. Segundo Lara Gomides, algumas Defensorias Públicas do país vem trabalhando com esta linha de pensamento, com intuito de readequar as dívidas à realidade do
assistido, de forma que seja possível o pagamento.

“Não se visa aqui institucionalizar o calote, mas possibilitar que o devedor de boa-fé pague suas dívidas dentro de suas possibilidades, privilegiando a dignidade da pessoa humana. Da forma como as dívidas bancárias da idosa vinham sendo cobradas, não estava sendo possível garantir o mínimo existencial. O que buscamos judicialmente foi um preceito único acerca de todas as contratações. Não se trata aqui de isentar a autora de suas responsabilidades, apenas de readequar seu orçamento para que consiga com dignidade quitar os valores solicitados”, alertou a defensora.

A DECISÃO

Na sentença, o magistrado fundamentou que a “hipossuficiência do consumidor face à oferta de crédito fácil das instituições, as quais não tomam o devido cuidado ao liberar empréstimos, sem a rigorosa análise do perfil econômico-financeiro do consumidor, faz com que aceitem o risco de o cliente não suportar o pagamento de todas as importâncias, estagnando no chamado superendividamento”.

O magistrado também relatou na sentença que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) vem consolidando o entendimento de que os descontos de mútuos em conta corrente devem ser limitados no patamar de 30% para descontos de empréstimos consignados em folha de pagamento.

Havendo desconto concomitantemente com consignado e outros empréstimos vinculados diretamente
na conta corrente, deverá ser respeitado um limite de 35% com base na Lei nº 13.172 /2015, isto porque a violação à impenhorabilidade de verba alimentar resta caracterizada, seja em decorrência do desconto realizado por apenas um credor ou da soma dos descontos realizados por vários credores. Ademais, a
permissão para tal conduta por parte das instituições financeiras, fere diretamente o princípio da dignidade da pessoa humana, não é permitido afirmar que uma pessoa consiga manter sua dignidade com sua renda 100% comprometida para arcar com o pagamento de dívidas adquiridas juntos aos bancos”, escreveu o juiz.

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