CPP de Palmas

Detento que cumprirá pena até os 80 anos mostra transformação através da arte

Por Agnaldo Araujo
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29/06/2018 14h01 - Atualizado há 1 mês
Usando uniforme e com as mãos algemadas, cabeça inclinada para baixo e olhar desconfiado, o homem chega a uma sala da Casa de Prisão Provisória (CPP) de Palmas para a entrevista. Enquanto os agentes prisionais retiram as algemas das mãos, ele se apresenta, quase que timidamente: “Bom dia, sou Jardiel”. Natural de Arari (MA), com 34 anos de idade, Jardiel dos Santos Lopes vive, hoje, sob um contexto diferente de outros detentos porque encontrou na fé e nas artes um universo diferente da rotina violenta que o levou à prisão. “Descobri com a pintura que posso ser útil, que tenho o meu valor”, orgulha-se o detento, que está preso há 13 anos. “Com uma tela na minha frente eu viajo pelo mundo sem estar de corpo presente, visito vários ambientes, vários universos e me esqueço até mesmo dos problemas e do lugar onde estou. É uma fuga, me ajuda a me desenvolver e me entender como um ser humano melhor”, declara. Ao falar sobre sua relação com a arte e o nome que assina as suas telas, a timidez inicial começa a dar lugar para o orgulho em ser artista: “Sou JLopes!”, diz. “Minha paixão é a pintura, mas estou escrevendo um livro. Tenho composições musicais e estou aprendendo a tocar violão”, conta. O sorriso ao falar disso estampa o seu rosto. Acervo Dos 13 anos preso, há dez ele 'se encontrou' com as artes plásticas, dedicação que o permitiu construir um acervo que já conta com cerca de 30 telas. Algumas estão espalhadas em corredores da CPP de Palmas. “É dar um pouco de cor e vida em um ambiente onde não temos pessoas com muita esperança”, diz. Algumas telas são doadas a amigos e familiares. A doação mais recente foi para a Defensoria Pública do Estado do Tocantins (DPE-TO). Intitulada 'A Última Ceia', a tela é uma interpretação da obra homônima de Leonardo da Vinci e foi incorporada ao patrimônio da instituição. Para a DPE-TO, é motivo de satisfação exibir na instituição a tela de JLopes. “Tal iniciativa é mais um incentivo para esta Defensoria Pública no cumprimento de nossa missão institucional”, destacou o defensor público-geral no Tocantins, Murilo da Costa Machado. Mas apesar da referência a Da Vinci, a maioria de suas obras traz alusão às próprias lembranças, especialmente de paisagens e aves. Não por acaso, um tucano foi a sua primeira pintura. Contexto A história de JLopes antes de chegar ao sistema prisional segue, infelizmente, um roteiro comum: se envolveu com drogas na adolescência, conviveu com más influências nesse período e também na juventude, e cometeu crimes. No banco dos réus, foi condenado ao regime fechado por latrocínio. JLopes tem um filho de seis anos de idade e é assistido pela Defensoria. Por meio do Núcleo Especializado de Assistência e Defesa ao Preso (Nadep), a DPE presta a orientação jurídica necessária a ele e a outros assistidos que cumprem pena ou aguardam julgamento no Tocantins. Transformação Foi no presídio em Araguaína que JLopes concluiu o ensino médio e onde fez, em 2008, um curso de pintura. Também na prisão ele se aproximou da fé e está, hoje, na ala da CPP de Palmas que concentra os detentos evangélicos. A cela é chamada por eles de “igreja”. Além das telas, JLopes tem mais de 30 composições musicais, está escrevendo a sua autobiografia, pratica aulas de violão - ministrada por um colega de cela - e decidiu se voluntariar para alfabetizar outros detentos. Jardiel - o JLopes - terminará de cumprir a pena total com mais de 80 anos. Ele, por sua vez, acredita na transformação. “Eu detonei o meu passado, mas hoje eu entendo que ainda dá para acreditar no futuro”. (DPE - TO)

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