Polêmica

'Vocês não sabem porra nenhuma, nem trabalhar', dispara coordenador para indígenas

O coordenador Barros Ramos foi nomeado pelo Governo Bolsonaro.

Por Redação 1.179
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01/12/2021 10h28 - Atualizado há 2 anos
Ronaldo de Barros Ramos

O Instituto Indígena do Tocantins (Indintis) acusa o coordenador do Distrito de Saúde Indígena do Araguaia, Ronaldo de Barros Ramos, de ter praticado um "ataque racista à cultura indígena".

O ataque teria sido proferido durante uma conversa com o conselheiro de saúde indígena Luiz Flávio Juanahu Karajá, no dia 23 de novembro. Um áudio da conversa foi divulgado junto à nota do instituto, no qual o coordenador afirma que “os povos indígenas não trabalham e não produzem nada”. Ele também afirma ser indígena, mestiço.

No áudio, o coordenador afirma que os indígenas “querem só ficar vivendo de miséria do povo, do governo. Vocês têm que ter vergonha na cara e trabalhar, pô. É isso que vocês têm que fazer. Aprender a trabalhar com 'tootori' [referência a não indígenas].

Diversas organizações indígenas, como o Instituto Indígena do Tocantins (Inditins), o Conselho de Saúde Indígena (Condisi) do Araguaia, a Associação Indígena do Vale do Araguaia (Asiva) e o Coletivo de Mulheres Iny criticaram a fala do coordenador e pediram que seja feita uma investigação pelo Ministério Público.

Procurado, o Ministério da Saúde afirmou que houve uma tentativa de desmoralizar o coordenador e que ele prestava um bom serviço na região.

OUÇA O ÁUDIO 

VEJA A NOTA NA ÍNTEGRA

No dia 23 de novembro em conversa com o membro do Conselho Regional de Saúde Indígena, Luiz Flávio Juanahu Karajá, o coordenador do Distrito de Saúde Indígena (DSEI) do Araguaia, Ronalde de Barros Ramos, atacou de modo racista a cultura indígena, afirmando que os povos indígenas não trabalham e ameaçou o conselheiro, que também é agente de saúde e educador indígena, de ser demitido.

Nomeado pelo Governo Bolsonaro, o coordenador Barros Ramos iniciou os ataques após Juanahu Karajá questionar sobre os recursos públicos que deveriam ter sido empregados na compra de gasolina para transporte de indígenas enfermos durante a pandemia. A falta de profissionais da saúde e mesmo a lentidão na vacinação também foram sentidas no DSEI.

Juanahu Karajá não recuou diante das ameaças do coordenador, mas quantos de nós precisam ser atacados para que o direito à saúde indígena, estabelecido na constituição, seja garantido? Esse ataque é fruto da gestão genocida do Governo Bolsonaro, que não ouve os povos originários e emprega funcionários racistas, com pensamentos ignorantes sobre a nossa cultura e nossos saberes.

Os povos indígenas não são guiados pela acumulação de poder e capital, mas sim pela vivência em harmonia com a floresta, seus animais e espíritos e por lei a nossa forma de vida deve ser respeitada e protegida pelo Executivo Federal.

Exigimos que o coordenador Ronalde de Barros Ramos seja exonerado, que os gastos públicos no DSEI sejam investigados e que a próxima gestão seja nomeada só após a consulta das lideranças indígenas presentes na região do DSEI.

São longos os passos que devemos travar para assegurar a segurança de nosso povo indígena, caso a Sesai se recuse a agir em relação a este ataque, significa que o aprova, e nós resistiremos e continuaremos exigindo que nossas demandas sejam executadas.

Nós do Instituto Indígena do Tocantins repudiamos todo o racismo que os povos originários do Tocantins sofreram e sofrem e lutaremos para que a justiça seja feita.

Para não deixar dúvidas em torno do racismo do coordenador transcrevemos parte de sua fala:

“Vocês não sabem porra nenhuma. Nada. Nem trabalhar vocês sabem. Um monte de terra, ninguém produz nada. Querem só ficar vivendo de miséria do povo, do governo. Vocês têm que ter vergonha na cara e trabalhar, pô. É isso que vocês têm que fazer. Aprender a trabalhar com 'tootori' [referência a não indígenas]. É isso que vocês têm que aprender. Nós temos que aprender, porque eu também sou índio. Eu sou índio, o senhor sabe disso. Eu sou mestiço. E aprendi a trabalhar. Eu nem preciso trabalhar mais, eu sou aposentado, eu ganho 12 mil reais da Marinha E tenho mais duas casas alugadas. Eu trabalho dia e noite, quando eu sair daqui eu vou trabalhar lá fora. É isso que vocês, o nosso povo, tem que aprender a fazer, é trabalhar. Coisa que não fazemos. Há 500 anos nós fomos descobertos e nós não conseguimos trabalhar, aprender com 'tootori' [não indígena] a produzir. Vocês não eram para precisar de saúde indígena, de saúde de merreca de governo, nosso povo era para ser milionário pela terra que nós temos. O que falta para nós é disposição para o trabalho, é isso que está faltando pro nosso povo".

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