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Tocantins registra explosão de casos de dengue, o pior surto da doença em uma década

Introdução de uma nova cepa da doença no país gera preocupação.

Por Redação 809
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23/05/2022 13h51 - Atualizado há 2 meses
Aumento de casos de dengue preocupa autoridades de saúde

Os casos de dengue no Brasil aumentaram em 151,4% durante os quatro primeiros meses de 2022 em relação ao mesmo período do ano anterior, e já superam o número total de diagnósticos de 2021.

Os dados do último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde mostram que, até abril, foram registrados 757.068 casos prováveis de dengue no país, enquanto nos 12 meses de 2021 juntos foram identificados apenas 534.743. Em 2020, esse volume foi de 979.764, total que também deve ser ultrapassado neste ano se os casos continuarem no ritmo atual.

O estado que mais registrou aumento em relação a 2021 foi o Tocantins, com um número de casos 1.666,2% maior. Além disso, o estado é o 3º do país com a maior incidência de casos por 100 mil habitantes, atrás apenas de Goiás e Distrito Federal. 

O surto de dengue é o pior registrado em uma década no Distrito Federal, Goiás, Piauí, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Tocantins.

A professora do departamento de Virologia do Instituto de Microbiologia da UFRJ, Luciana Costa, aponta uma das possíveis causas do aumento. "Temos tido uma desmobilização dos agentes públicos que faziam as campanhas corpo a corpo, educacionais, de ir aos locais verificar acúmulos de água, orientar a população sobre como evitar a reprodução do mosquito, e as pessoas relaxaram as medidas também porque tiraram o foco da dengue com a pandemia", pontua.

Além disso, para a coordenadora do InfoDengue e pesquisadora da Fiocruz, Claudia Codeço, há um reflexo do número maior de brasileiros na faixa da pobreza no maior número de casos da doença. Segundo um levantamento realizado pela consultoria Tendências, entre 2012 e 2022, a quantidade de domicílios no país que integram as classes D e E aumentou de 48,7% para 51%.

— O empobrecimento da população pode estar relacionado à medida que as habitações ficam mais precárias, ficam com maior dificuldade de coleta de lixo, descarte, maior acúmulo de água. Então esses fatores todos podem aumentar a proliferação dos mosquitos e consequentemente os casos da dengue — afirma a especialista.

Casos de dengue aumentam 151% no Brasil; veja estados com maior incidência. — Foto: Arte O Globo

Casos de dengue aumentam 151% no Brasil; veja estados com maior incidência. — Foto: Arte O Globo

Métodos de combate à doença

As iniciativas para combater a dengue são voltadas exclusivamente para diminuir a reprodução do agente transmissor da doença, o mosquito Aedes aegypti, que é mais presente nos primeiros meses do ano devido ao calor. Para depositar seus ovos, o inseto utiliza água parada. Portanto, os métodos envolvem verificar lugares onde pode haver recipientes com líquidos, como caixas d’água abertas, vasos de plantas, garrafas e pneus, e eliminar o acúmulo. Além disso, não deixar concentrar o lixo e utilizar repelente em áreas de grande exposição a mosquitos são formas eficientes de evitar a doença.

Em relação a formas mais robustas de prevenção, embora o Brasil tenha uma vacina aprovada para a doença pela Anvisa – a Dengvaxia – o imunizante está disponível apenas em clínicas particulares e não oferece ampla proteção contra a doença.

— A vacina atual não funciona bem em quem nunca teve dengue, ela induz uma resposta melhor apenas para quem já teve, evitando uma reinfecção que normalmente é mais grave. Ela não chegou a ser implementada no SUS, uma decisão que eu concordo em gênero e grau. Do ponto de vista individual, algumas pessoas até poderiam se beneficiar, mas do ponto de vista coletivo da epidemiologia, não oferece muitos benefícios — explica Mauro Teixeira, da UFMG.

Testagem em falta

A explosão de casos da dengue acontece no momento em que diversos estados brasileiros relatam a falta de reagentes para realizar a testagem rápida nos postos de saúde. Nesta quinta-feira, por exemplo, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) cobrou a Secretaria de Saúde do DF sobre a falta de testes na rede pública. O desabastecimento foi relatado ainda por lugares como Bahia, Piauí, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe.

Procurado, o Ministério da Saúde afirmou apenas que “uma nova remessa dos insumos está prevista para ser entregue até o mês de junho” e ressaltou que os testes moleculares produzidos pela Fiocruz, responsáveis pelos diagnósticos laboratoriais, estão sendo entregues. A pasta não retornou sobre o motivo da falta de reagentes.

Nova cepa e sintomas

Recentemente, houve também o temor de uma piora dos casos provocada pela introdução de uma nova cepa da doença no país, depois que a linhagem chamada genótipo cosmopolita do sorotipo 2 foi identificada pela primeira vez no Brasil, em maio. Porém, especialistas reforçam que a variante já é predominante em outras partes do mundo e que não parece ter um comportamento significativamente diferente da linhagem asiático-americano, atualmente predominante no Brasil.

O vírus da dengue é dividido em quatro sorotipos, de 1 a 4. A versão atual que circula no país é uma sublinhagem do sorotipo 2. Ele é transmitido por meio da fêmea do mosquito Aedes aegypti que carrega o vetor após picar uma pessoa contaminada. A infecção provoca uma inflamação dos vasos sanguíneos que se manifesta com com febres altas, dores nos músculos, nas articulações e na cabeça, mal-estar, manchas vermelhas no corpo e enjoos.

Os sintomas costumam durar cerca de dez dias e, como não há tratamento específico para a dengue, os remédios utilizados buscam reduzir as consequências da contaminação até que o sistema imunológico consiga acabar com a infecção. A letalidade da doença não é alta mas, quando os casos estão elevados, um número significativo de mortes é provocado em consequência. Em 2022, já foram relatados 265 óbitos e outros 300 estão em investigação – em 2021, foram 241 registros no total.

— Em geral, a notificação de casos de dengue é mais concentrada na faixa etária de adultos, que são as pessoas que acabam circulando mais. Porém, em termos de agravamento, os idosos, pessoas com comorbidades, são aquelas que têm mais risco de complicação — explica a coordenadora do InfoDengue.

(Com informações do O Globo)

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