Nobel da paz

Iraniana sequestrada e transformada em escrava sexual relata horror e destaca sua fé em Deus

Nadia Murad foi sequestrada, viu membros do seu grupo morrer e chegou a ser estuprada em grupo.

Por Gláucia Peixoto 917
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11/10/2018 09h48 - Atualizado há 1 semana
Nadia Murad

Nadia Murad é a uma jovem mulçumana e ativista dos direitos humanos agraciada com o Nobel da Paz de 2018.

O trabalho e a militância da jovem iraquiana já eram reconhecidos e respeitados em grande parte do mundo desde que ela própria sentiu na pele a crueldade dos abusos sexuais cometidos largamente como arma de guerra, prática desumana utilizada principalmente contra as minorias éticas e culturais como os yazidi, povo de Nadia, e minoria islâmica no Iraque.

O ATAQUE

Em 3 de agosto de 2014, o Estado Islâmico atacou os yazidis em Sinjar, região no norte do Iraque próxima a uma montanha de mesmo nome. Antes disso, os integrante do grupo haviam atacado locais como Tal Afar, Mosul e outras comunidades xiitas e cristãs, forçando a saída dos moradores.

"A vida em nosso vilarejo era muito feliz, muito simples. Como em outros vilarejos, as pessoas não viviam em palácios. Nossas casas eram simples, de barro, mas levávamos uma vida feliz, sem problemas. Não incomodávamos os outros e tínhamos boas relações com todos", contou Nadia ao programa HARDtalk, da BBC.

Naquele dia de agosto, diz ela, 3 mil homens, idosos, crianças e deficientes foram massacrados pelo EI.

Logo separaram os homens, cerca de 700. Levaram todos para fora da aldeia e começaram a atirar neles. Nove irmãos de Nadia estavam entre eles.

"Da janela da escola podíamos ver os homens sendo baleados. Não vi meus irmãos sendo atingidos. Até hoje não pude voltar à aldeia nem ao local da matança. Não há notícias de nenhum dos homens”, relatou.

Ao todo, 18 membros da família de Nadia morreram ou estão desaparecidos. Nadia foi levada com outras mulheres. Havia cerca de 150 meninas no grupo, incluindo três sobrinhas dela.

Elas foram divididas em grupos e levadas de ônibus até Mosul.

"No caminho, eles tocavam nossos seios e esfregavam as barbas em nossos rostos. Não sabíamos se iam nos matar nem o que fariam conosco". Ao chegar ao quartel-general do EI em Mosul, encontraram muitas jovens, mulheres e meninas, todas yazidis. Tinham sido sequestradas em outras aldeias no dia anterior.

A cada hora, homens do EI chegavam e escolhiam algumas meninas. Elas eram levadas, estupradas e devolvidas. Nadia percebeu que esse também seria seu destino.

"As meninas tinham entre 10 e 12 anos, elas resistiam, mas foram forçadas a ir. As mais jovens se agarravam às mais velhas. Uma delas tinha a mesma idade de minhas sobrinhas, chorava e se prendia a mim”, relatou.

Quando chegou sua vez, Nadia foi selecionada por um homem bem gordo que a levou a outro andar. Outro militante passou e o convenceu a levá-la ─ mas isso não mudou as coisas.

Muitas jovens na mesma situação se suicidaram, disse Nadia, mas essa não foi uma opção para ela.

"Acho que todos devemos aceitar o que Deus nos deu, sem importar se é pobre ou se sofreu uma injustiça, todos devemos suportar”, destacou.

Ela tampouco questionou sua fé. "Deus estava cada minuto em minha mente, ainda quando estava sendo estuprada”, disse.

Nadia tentou fugir pela primeira vez por uma janela, mas um guarda a capturou imediatamente e a colocaram em um quarto onde foi estuprada por todos os homens do complexo.

"Fui estuprada em grupo. Chamam isso de jihad sexual”. Após esse episódio, Nadia não pensou em fugir de novo, mas o último homem com quem viveu em Mosul decidiu vendê-la e foi arranjar roupas para ela.

Quando ordenou que ela tomasse banho e se preparasse para a venda, ela aproveitou para escapar.

Nadia conseguiu fugir e encontrou ajuda em uma família mulçumana contrária ao EI. "Deram-me um véu negro, um documento de identidade islâmico e me levaram até a fronteira”, falou.

Nadia foi acolhida na Alemanha e então iniciou sua militância em prol das milhares de outras mulheres que ainda vivem essa brutal violação da dignidade humana.

ATIVISMO

Nadia encontrou abrigo na Alemanha e se tornou uma ativista após escapar do EI em novembro de 2014 – desde então viaja o mundo fazendo campanha para chamar atenção para a tragédia dos yazidis e da violência sexual praticada contra mulheres.

A luta de Nadia rendeu a ela vários prêmios internacionais, além do Nobel da Paz de 2018 que dividirá com o ginecologista do congolês , Denis Mukwege, de 63 anos,  que também luta contra os estupros e já salvou milhares de vítimas de abusos sexuais no Congo.

Em 2016, ela recebeu da União Europeia o importante prêmio Sájarov à Liberdade de Consciência, junto a Lamiya Aji Bashar, também escravizada pelo EI.

Em 2017, Nadia pediu para encontrar-se com o Papa Francisco por admirar a militância do líder católico em prol dos direitos humanos e sua firme postura de combate ao tráfico de pessoas.

No mesmo ano, também foi nomeada embaixadora da Boa Vontade da ONU para a Dignidade dos Sobreviventes do Tráfico Humano.

Nadia conta o que viveu em sua autobiografia “The last girl” (a última garota) e encoraja pessoas no mundo inteiro a lutar pelos direitos humanos e fim das várias formas de violência.

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