Tragédia

Após tragédia com mais de 60 mortes confirmadas, Brumadinho chora e se ajuda

Brumadinho é uma cidade pequena, então é difícil encontrar alguém que não conheça alguma vítima direta da tragédia.

Por Redação 542
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29/01/2019 10h16 - Atualizado há 10 meses
A barragem rompeu na última sexta (25) e a lama deixou um rastro de morte e destruição

Uma circulação incessante de pessoas carregando mantimentos, engradados de garrafas d’água e artigos de primeira necessidade. Carros de resgate subindo e descendo as ruas em necessária urgência. Faixas e manifestações em muros revelando o sentimento presente: “Vale Assassina Reincidente”, “O lucro é o que Vale”; “A Vale Mata!”. Repleta de dor, revolta e esperança, essa foi a Brumadinho que encontramos logo ao chegar aqui, na tarde de ontem.

Uma equipe do Greenpeace chegou à cidade um dia após o rompimento da barragem para documentar a catástrofe e ajudar a garantir transparência sobre o que está acontecendo aqui. Viemos cobrar justiça e testemunhar a extensão da tragédia humana e ambiental causada pelo desastre, dando voz aos atingidos. Nossa intenção é também fortalecer a mobilização local e nacional pela apuração do crime e reparação das vítimas.

Os relatos de pessoas que perderam familiares, casa, acesso à água e tantas outras coisas, por conta de mais esse crime da Vale e descaso do poder público, emocionam muito. Brumadinho é uma cidade pequena, daquelas em que quase todos se relacionam. Então é difícil encontrar alguém que não conheça alguma vítima direta da tragédia.

Dona Irani, sobrevivente do desastre em Brumadinho. Ela escapou por pouco

É impactante também ver a grande mobilização que se criou na cidade, para abrigar e cuidar dos atingidos. Tentávamos descer para perto de onde a barragem se rompeu, na localidade de Córrego dos Feijões, quando Diego apareceu para nos ajudar. Professor de uma escola local, ele tem trabalhado sem parar desde sexta-feira, primeiro no resgate e depois encaminhando doações e direcionando as muitas pessoas que chegam na cidade como voluntárias. Diego perdeu alunos e parentes na tragédia, mas ainda não parou para chorar suas mortes. “Não deu tempo de pensar em luto ainda”, ele me disse com um olhar triste.

Já em Córrego dos Feijões, a cerca de 3 quilômetros da barragem da Vale, encontrei Dona Irani, moradora que se salvou por pouco. Ela havia passado pelo local poucos minutos antes da lama passar destruindo tudo. “Depois que parou, deu um pranto, choro, que não calava de jeito nenhum”, ela me contou enquanto caminhava com suas filhas e netas para a casa que em breve será evacuada, sem saber ainda o que aconteceria com a família a partir de agora.

Veículo de remoção de corpos deixa local onde familiares e imprensa aguardam notícia

Enquanto escrevo este texto, na manhã de domingo, há 37 mortes confirmadas e mais de 300 desaparecidos. E o perigo continua. Às 5h30 da manhã, fomos todos acordados por sirenes e gritos de agentes públicos para que moradores das partes mais baixas de Brumadinho deixassem suas casas, procurando abrigo nas partes mais altas.

Acreditava-se que uma nova barragem havia se rompido. Apesar do alarme falso, há de fato um risco iminente de que a barragem VI, que comporta de 3 a 4 milhões de metros cúbicos de água, se rompa, destruindo partes não atingidas pelos rejeitos. Ou seja, o drama das pessoas daqui está longe de acabar: para quem sobreviveu à tragédia, o medo é outro sentimento com o qual precisam lidar.Assim como o Pico do Cauê retratado nos poemas do mineiro Carlos Drummond de Andrade não existe mais, Córrego do Feijão desapareceu do mapa. O que há em comum entre uma montanha que virou cratera e uma comunidade soterrada por lama tóxica não é apenas a mineração, mas também a ganância.

Os impactos do crime ambiental cometido pela Vale em Brumadinho ainda estão se desenrolando. Há a probabilidade de que a lama se estenda até 220 quilômetros do local, e que possa ser retida na Usina Hidrelétrica (UHE) de Retiro Baixo, entre Curvelo e Pompéu. Caso contrário, ela pode chegar ao Rio São Francisco. Embora ainda não seja possível saber o impacto total, já se identifica uma grande mortandade de peixes. Os rejeitos da Vale já destruíram a porção do Rio Paraopeba que corta a Terra Indígena Pataxó Hã-hã-hãe. Para entender a dimensão dos impactos e as formas de mitigá-los serão necessárias muitas pesquisas, como as que o Greenpeace ajudou a realizar em Mariana.

Este é um texto que eu não gostaria de estar escrevendo. Essa não é a Brumadinho que eu gostaria de estar retratando. Mas enquanto houver casos de impunidade e injustiça social, seguiremos denunciando e fazendo pressão para que os culpados sejam devidamente punidos e as vítimas, reparadas. E para que o meio ambiente seja, de uma vez por todas, respeitado.

*Mariana Campos é jornalista do Greenpeace Brasil em Brasília. Colabora na campanha contra agrotóxicos, é vegana e gosta de andar descalça na floresta. Começou a abraçar árvores ainda criança e não parou mais.

*Texto publicado originalmente em 27/01/2019 no site do Greenpeace Brasil

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Fotos: divulgação Greenpeace/Fernanda Ligabue (abertura), Nilmar Lage e bombeiros (demais)  

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